terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Capítulo VI - Um Novo Concílio

Dia 24  - Tínhamos muito a fazer: o advogado é escorregadio. Sabemos que os papéis não serão entregues a Lucius até amanhã, porque ele está em uma reunião. Enquanto isso, decidimos sondar o galpão. Vincent me derrubou da cama para me acordar. Apesar de dormir muito pouco e raramente me recusar a levantar, essa coisa de fuso horário me deixa dopado. Meu corpo todo está dolorido. 
      Ontem tive uma conversa com Vincent, ainda no avão. Não tinha entendido como um vampiro sem corpo poderia ainda estar vivo.
_ Já ouviu falar de vampirismo psíquico?
_ Você me explicou um pouco quando me falou dos Aset Ka.
_ O caso é quase o mesmo. Como eles estão sem corpo físico, o corpo espiritual deles anda por aí sugando a energia vital dos outros. Durante o dia, presume-se que eles retornem para a parte do corpo que ainda existe, mesmo que mutilado, e usa a energia vital sugada para preservar o que puder do corpo. Enquanto ainda houver corpo, ele tem alguma ligação com o mundo físico. Portanto o único jeito de derrotá-los definitivamente é queimando o corpo e se livrando das cinzas.
_ Acho que eu dormiria melhor se não soubesse disso.
_ Não seja tolo. Um paladino não pode se dar ao luxo de não saber, e agora que você está na guerra...
_ Ignorância é uma bênção. - suspirei.
      Há um motivo para eu ser um assassino de aluguel: nada de envolvimento, e risco zero de acabar sendo a vítima. A velha punhalada pelas costas. Tudo bem que não parece nem um pouco ético, mas quem foi que falou em ética? Precisamos ser eficientes. Ética é assunto para os acadêmicos, e não para gente como nós. Imaginar que minha vítima possa usar um desses vampiros psíquicos contra mim no mínimo incomoda. Quando me contrataram, não pediram por um cara corajoso, pediram por um cara eficiente.
      Do lado de fora do galpão, um monte de Aset Ka vigiava. Temos que ser rápidos: já é quase quatro da tarde e em breve temos um encontro com o tal do Michael Von Haugh. Precisamos entrar, sondar, fotografar, ver se encontramos algo que nos dê a entender o que está acontecendo.
_ Escute bem: vou entrar e você vai vigiar. Se houver algum perigo, me chame pelo rádio.
_ Você não está falando com uma criança, Black Cat. Eu entendi assim que você disse a primeira vez.
_ Que seja.
         Com maestria, ele se desvencilhou dos olhos dos guardas, e escalou até o teto do galpão. Exatamente como o chamavam: Black Cat. Sua habilidade em entrar e sair dos lugares justificava o apelido. Não havia lugar em que ele não conseguisse executar seus alvos. Uma vez ele entrou em uma festa lotada de seguranças e assassinou um membro importante do senado americano. Assim como entrou, saiu, carregando o dedo esquerdo do indivíduo como prova de que tinha sido ele. Segundo me disse, o senador era um vampiro. A prata que atravessou seu coração era banhada em nitrato de prata. Foi letal. Quando perceberam que ele estava morto (quinze minutos depois de Black Cat ter saído da festa), ele estava a caminho do aeroporto de Cleveland, onde embarcaria no dia seguinte para a França. Ninguém conseguiu entender como isso pode ter acontecido: só de eu dizer que o presidente em pessoa compareceu ao evento já torna imaginável o esquema de segurança montado para a festa.
       Enquanto ele estava sondando o interior do galpão, fiquei de olho no GPS. Graças a Deus o infeliz do Bledsoe não usava outra pasta. Liguei o aparelho, e o ponto que indicava sua localização dava voltas pela cidade. Observei por uns quinze minutos. Nesse espaço de tempo, ele cruzou três vezes a avenida Harwood, no Bromley.
       Toques no vidro do carro. Nem tinha virado a esquina direito, não dava pra ninguém saber que estávamos ali. A mais de trezentos metros do galpão, estacionado entre uma dezena de carros, o casal dois carros à frente em seus momentos de volúpia chamariam muito mais atenção do que um cara velho sentado no banco de trás, mas o guarda fez questão de parar justamente na minha janela. Alguma coisa está errada. Desliguei o rádio antes de falar com o guarda.
_ Pode abaixar o vidro do carro, por favor?
_ Eu não gosto de polícia - falei, tentando parecer embriagado. Antes de abrir a porta, deixei que uma garrafa de rum caísse no chão, para embeber o carro do odor. Tomei a garrafa, coloquei um pouco na boca e cuspi - Vocês não sabem respeitar ninguém. Eu só quero dormir um pouco, pode ser? Não estou em condições de dirigir.
_ Preciso que abaixe o vidro, senhor.
Essa insistência nervosa não é nenhum pouco normal para a polícia britânica.
_ Deixa eu passar pro banco da frente... Cadê minhas chaves? - mais um pouco da bebida vai à boca. Nada foi sorvido dela, apenas um mínimo que pudesse marcar o hálito. Com malabarismos tipicamente alcoólicos, tomei bastante do tempo e paciência do policial. Finalmente abri, e percebi a agonia do policial para permanecer perto da janela.
_ E então? O que foi?
_ Posso ver sua identidade?
_ Eu não vou deixar ninguém ver minha identidade. Nem fui barrado na blitz... Eu estava cochilando no banco de trás justamente pra não dirigir. Sabe por quê? Sabe não? Não? Porque... - soluço - se beber não dirija... Eu sou responsável! Posso não ser muita coisa: minha mulher não me quer mais em casa, mas eu tirei o carro dela. Ela tirou tudo no divórcio...
_ Preciso ver sua identidade agora, senhor! Ou terei que levá-lo até o departamento de polícia para esclarecermos se o senhor deve alguma coisa à justiça!
_ Que é isso? Tá parecendo mais a minha mulher... Ela sim é uma vaca! O senhor não é uma vaca não, não foi isso que eu quis dizer. O que eu quis dizer... Presta atenção...
_ Senhor, seus documentos!
_ Tem pessoas que não se entendem! Você... não se entende... Ela não presta! Meu amigo, ela me tomou tudo! Mas eu tomei o carro dela! Bem feito!
_ Senhor, saia do carro. Precisamos revistá-lo.
_ Por quê?
_ Um homem foi preso assaltando um galpão agora há pouco, e estava com um rádio comunicador. Presumimos que ele tenha um comparsa.
     Quando Vincent desapareceu teto adentro, eu esperava que fosse durar no mínimo vinte minutos. Pelo menos era o que tínhamos combinado. Não observei que nos cantos das lajes haviam antenas bloqueando a comunicação.
     Dentro do galpão uma penumbra permitia que se enxergasse algo. Era o suficiente para Vincent, segundo o próprio. Ele enxerga à noite como nós enxergamos de dia. Pelo menos seis super antenas parecidas com as do campo no Alaska estavam sendo montadas do lado de dentro. Então alguma coisa nos fugiu ao entendimento, porque disseram ao mequetrefe: "com isso você tem o suficiente para começar". Se já começaram, então eles falavam de quê? Tirou a máquina do bolso e começou a tirar fotos.
_ Mad Dog... Está me ouvindo?... - cochichou ele no rádio. Alguma coisa estava errada: pensando bem, por quê só haviam seguranças do lado de fora? Por que ninguém vigiava o lado de dentro? Tão logo pensou nisso, tentou pular por sobre os objetos que o levavam para o teto, mas não foi rápido o suficiente: algo se agarrou ao seu pé. Olhando para baixo, um vampiro grotesco segurava um chicote, e puxou-o com toda força, lançando-o no chão. A polícia o cercou:
_ Polícia! Ponha as mãos sobre a cabeça!
Vincent obedeceu. Não deixou de notar que todos os rifles e armas apontados para ele possuiam um silenciador.
_ Você está preso por invadir propriedade privada.
_ Uma ova que eu estou. - falou assim que percebeu que não estava mais atado pelo chicote do "morcego russo". Tinha desamarrado alguma corda de uma polia, e enquanto colocava devagar as mãos na cabeça, foi deixando a corda escorregar. Soltou-a por completo no devido momento. Enquanto os policiais se voltavam para trás para ver o que tinha causado o barulho, Vincent tomou consigo uma placa pesada de metal. Enfurecido pela forma como foram enganados os policiais, o "morcego russo" tomou a arma de um deles e começou a disparar contra o invasor. Rajadas de tiros atingiam objetos imaginários pelo galpão, enquanto Vincent lançava o corpo habilidosamente entre um pilar de ferro maciço e a parede do galpão. Novamente foi impedido pelo chicote do "morcego russo". O grandalhão - pelo menos uns trinta centímentros mais alto que Vincent, e um meio metro mais largo em cada braço, chutava objetos em sua direção. Enquanto se aproximava dele, Black Cat se desviava dos obstáculos, calculava com que força deveria bater no grandão para que ele caísse. Infelizmente não calculou força o suficiente, ou não possuía o necessário, pois ao ser atingido no rosto por um belo soco, o grandão fechou suas enormes mãos sobre o braço de Vincent e o rodopiou como um brinquedo antes de arremessá-lo contra o maquinário velho da vidraçaria. Vincent precisava de prata, mas infelizmente toda a que tinha estava no carro. O grandão ainda o chutava e socava o quanto podia, enquanto Vincent se esquivava com dificuldade, algumas vezes se defendendo com os braços, outras vezes dobrando o corpo para não ser atingido. Era infinitamente mais doloroso usar os braços para se defender, além de ser quase inútil. Os golpes que ele conseguia acertar não surtiam muito efeito, porque parecia que o grandão tinha couro de rinoceronte.
         O brutamontes buscava o pescoço de Vincent a cada passo que dava, girando uma barra de ferro pesada contra a velharia ao seu redor. Vincent fazia de tudo para se certificar que ele não conseguiria acertar mais do que metal e concreto, se contorcendo e pulando para se desviar do objeto. O "morcego russo" ficou tão irritado que lançou a barra de ferro contra ele, que se esquivou.  O grandalhão pulou sobre ele, que saltou para trás antecipando seu movimento, e quando o peso morto-vivo do vampiro atingiu a outra extremidade da barra de ferro onde Vincent estava, ele fora arremessado ate quase a altura do teto. Quando achava estar são e salvo, com todos os policiais atirando a esmo e o armário de velório cuspindo fogo e sangue, algo o desacordou. Antes disso, uma lembrança: olhos vermelhos, de cantos amarelados, uma pele deteriorada, e uma bandana cobrindo uma boca deformada. Saída diretamente de um circo de horrores, a criatura vil tinha um olhar pesado, malévolo, incomum até mesmo para os vampiros. Lembrava-se agora vagamente daquele olhar, mas não o suficiente para identificá-lo.


...


       O policial olhava com impaciência pela janela.
_ Que mundo mais esquisito, seu polícia. Assaltaram a vidraçaria?!
_ Saia do carro agora, ou terei que usar a força.- disse ele, já apresentando os sinais de fraqueza que eu esperava. Cambaleou um pouco, nem chegou a perceber o dardo em seu pescoço, e quando conseguiu pensar em sacar a arma, já tinha uma Desert Eagle apontada para sua cabeça.
_ Nem pense nisso. Agora durma e me deixe tratar dos meus negócios.
       Quando ele dormiu, abri a porta e entrei no carro da frente, que já tínhamos preparado prevendo uma situação parecida. A cinco quilômetros dali havia ainda outro, mais popular e seguro, que nos levaria a Michael Von Haugh. Quando dei a partida, fui surpreendido por uma figura no banco de trás, transpirando seu ar fétido de velório, como da vez em que atirei em seu crânio, me amaldiçoando outra vez com os olhos:
_ Onde vai com tanta pressa, Sr. Mad Dog?
_ Maldito...
_ Não se preocupe: esta é só uma visita social... - disse o maldito, rindo-se de seu triunfo.
_ A que devo a "honra" de uma visita tão incomum?
_ Estamos com seu amigo. Ele vai nos contar tudo o que precisamos saber. A menos que você colabore conosco.
_ Parece que você nunca teve contato com pessoas como ele e eu.
_ Pelo contrário, Sr. Mad Dog. Nossa experiência com sua corja é muito vasta. Você simplesmente não sabe com quê está se metendo.
_ Viu o que eu disse? Isso não vai me intimidar.
_ Lembra dos contos que você e seus amiguinhos ouviam sobre nós durante o Halloween? Têm seu fundo de verdade. A realidade é que podemos ser muito mais eficazes em nossos métodos do que você possa imaginar.
       A essa altura, eu tinha uma arma voltada para a cabeça dele, e essa tinha balas de prata.
_ Você sabe que não vai poder me matar, não é mesmo?
_ Claro, estou contando com você desde o princípio. Daqui a pouco você vai se encontrar com um paladino, chamado Von Haugh. Ele tem algo que nos pertence, graças a vocês dois. Leve-nos até o ponto de encontro, e deixaremos seu amigo ir.
_ Acha mesmo que vou acreditar nessa história?
_ Você não tem escolha.
_ Tenho sim, e está voltada pra sua cabeça. - disse, teclando o botão do celular que correspondia ao gatilho do mecanismo que montei no banco de trás para situações como essas. Gargalhando, ele disse, enquanto eu via uma fumaça se desfazendo.
_ Então esse era o seu plano?
_ Mas como...?
_ Já ouviu aquela lenda de que os vampiros não possuem reflexo no espelho? É apenas um eco da verdade.
       Era isso: olhando pelo retrovisor, constatei que não havia nada no banco de trás. Segundo o que Black Cat me disse sobre ilusões, elas não são refletidas no espelho. Assim como a Medusa não pode lançar seu feitiço de petrificar suas vítimas se não for face a face, os vampiros não conseguem esconder suas ilusões do reflexo de um espelho.
_ Me leve até Von Haugh, ou pode dar adeus ao seu companheiro. - e desapareceu. 
       É difícil admitir isso, mas não posso fazer nada pelo meu amigo. Se ele depender de mim para escapar das mãos do Bledsoe, vai morrer, porque eu não tenho poder para tirá-lo de lá. Só posso confiar na capacidade que ele tem de fazer fugas improváveis - o que deu a ele o apelido. Agora tenho outro impasse: não posso chegar até Von Haugh, porque alguém do mequetrefe está vigiando meus passos, e com as habilidades que os vampiros têm, é impossível que eu saiba de onde. O que também não significa que deva abandonar o encontro. Não tenho como avisá-lo da situação. O que eu faço agora?

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