quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Capítulo V - Um Novo Concílio

Dia 21 -  Enquanto o tempo passava na paisagem gélida do Alaska, nos escondemos nas vegetações ao redor do campo de antenas, aguardando o contato entre o mequetrefe e os espiões. Fotografamos e pesquisamos cada um dos funcionários que cruzaram nossas lentes. Eles têm guardas espalhados por todo o perímetro. O frio não nos deixa pensar o suficiente, mas não podemos nos dar ao luxo de perder detalhes: revisamos dezenas de vezes o que encontramos, principalmente porque minha mente não trabalha tão rápido quanto a de Vincent. Bledsoe desembarcou no aeroporto de Gulkana hoje de manhã, às 10:45 AM, por um avião fretado, e não pernoitou em hospedagem nenhuma que houvesse no caminho. Segundo uma rede de informações dos paladinos (nem acredito que disse isso) ele dormiu em uma cabana às margens da rodovia Richardson, antes de chegar à Gakona. Está sendo seguido por um amigo de Vincent, que afirma que o mequetrefe se encontrará às 02:37 PM na estrada que liga o campo militar com a cidade de Gakona, em um posto. Seguiremos os dois indivíduos que descobrimos infiltrados aqui dentro.
      Os paladinos possuem uma base de dados complementares e o acesso à do governo. Nela, listaram todos os vampiros e seres bizarros que tiveram a oportunidade de catalogar. Dos rostos que flagramos no portão, dois foram reconhecidos no sistema: Percy Meyer e Randy Hamrick Huss. No sistema do governo, eles já morreram pelo menos oito vezes. Esta deve ser a nona vida. Eles têm de trocar de identidade a cada dez anos pelo menos, para que não percebam que eles não envelhecem, portanto suponho que sejam bem novos (para vampiros). Suas habilidades como cientistas são inquestionáveis, segundo Vincent. Têm um intelecto brilhante, e por isso mesmo foram "recrutados" por Lucius, que alimenta uma pesquisa tão secreta que resistiu à todas as tentativas de espionagem empreendidas pelos Paladinos.
_ Quer dizer que você é o Black Cat? - falei, tentando puxar assunto.
_ Sim.- e um silêncio agudo.
_ Nem acredito que estou falando com o caçador de recompensas mais famoso do mundo.
_ É.- e mais meio século sem uma palavra sequer.
_ Como foi que você ganhou o apelido?
_ Dizem que eu trago má sorte a quem cruza meu caminho. - Ri, tentando fazer alguma graça contagiá-lo. Em vão.
_ Isso é bem verdade.
_ Trago menos sorte ainda para meus parceiros.- Wow! Isso era um tanto arisco para dizer a quem estava trabalhando junto dele. Realmente desnecessário.
_ Desculpa. - falei, para dar a entender que não puxaria mais assunto.
_ Que é isso, eu é que peço desculpas se pareceu uma ofensa. É que esse apelido tem uma história infeliz, só isso.
_ Tudo bem. Desculpa de novo. A gente não fala mais nisso. Não vamos brigar que nem cão e gato.
      De repente notei um sorriso que Vincent tentava abafar. Sou um homem simples, é verdade, e devido ao rigor do ofício não estou acostumado com essa coisa de rir.
_ Que nem cão e gato... - cochichou Vincent para o binóculo. Era disso que ele ria? De um trocadilho bobo desses? Naquele momento ele me pareceu tão desengonçado que comecei a rir de sua risada. Quando pensava em fazer outra piadinha para manter o ambiente descontraído (quanto tempo faz que não rio assim?) os dois seres da noite saíam.
_ Vincent, olha lá.
_ São eles.
_ Uma pergunta que eu tenho aqui comigo: se eles são vampiros não deveriam torrar em contato com o sol?
_ Eles são apenas fotossensíveis. Ficam algumas manchas na pele quando eles saem ao sol, mas existem protetores solares desenvolvidos para pessoas assim, que reduzem os efeitos dos raios do sol sobre a pele. Além disso, eles possuem alta capacidade regenerativa. Essa habilidade é bloqueada em contato com raios UV, mas basta quinze minutos de sombra para se recuperarem. Agora silêncio. Depois a gente fala a respeito.
       Vincent insistiu que não usássemos veículo algum para seguí-los, porque eles ouviriam, e não poderíamos "pegar carona" no deles porque sentiriam nosso cheiro. A opção foi esperar. Quase cinco minutos depois deles terem ido embora (quase fiquei louco com isso) começamos a cavalgar dentro da mata, por uma trilha de lenhadores. O cavalo era branco, bem como nossas roupas, para que nos camuflássemos na neve.
_ Se eles estão tão à nossa frente, como é que você tem tanta certeza de que consegue alcançá-los? E a cavalo!?
_ Eu consigo ver a trilha deles na estrada, como uma fumaça negra.
_ Não estou vendo nada!
_ Confie em mim.
      Quase dezoito quilômetros depois, o carro deles estava parado. Vincent tentou ativar a escuta do mequetrefe, a uns trezentos metros dali. Deu certo. Eu comemorei o fato, mas o Vincent não pareceu estar muito satisfeito com isso, apesar de tudo.
_ Desculpem mesmo por isso... - dizia Dean.
_ É muito cedo para começarmos esse projeto. Ainda não temos informações o suficiente, e como se não bastasse, a francesa roubou a parte mais importante das pesquisas.
_ Não se preocupe com isso. Já tomamos medidas para recuperar essas informações. Aquilo que ainda não descobrimos sobre o HAARP é o que realmente merece nosso foco agora. Os Três já estão em Londres em espírito, e logo estarão em carne. Precisamos ser rápidos. O Mestre nos deu prazos apertados, é verdade, mas não temos escolha. Se não fosse assim, estaríamos fadados ao fracasso.
_ Ele disse os Três... - cochichou Vincent. - Se for o que estou pensando, isso não é bom.
_ O que não é bom?
_ Sh! Silêncio... - me disse ele. Contive alguns pensamentos homicidas e mantive o foco nas escutas.
_ Muito bem. - gabava-se Bledsoe, olhando para a maleta que os espiões traziam no carro. _ É o restante que faltava?
_ Com o que você tem em mãos é possível começar o projeto. O que falta estará em mãos em oito dias. Se puserem nas mãos da equipe do Dr. Bramevond, eles saberão o que fazer.
_ Você sabe que eles não se dão muito bem com as outras castas envolvidas no projeto. Lucius nunca aprovará!
_ Também achamos que ele ficará nervoso, mas conhecendo um pouco sobre a mente de Lucius, ele vai saber usá-los enquanto necessário.
Dean parecia detestar o que ouviu, mas apenas virou-se, pôs a mala no carro, e foi-se. Seu vôo já o esperava. A dupla "Pink e Cérebro" também voltou pelo mesmo caminho que tomaram antes.
      Alguns quilômetros antes de chegar ao campo, encontramos rastros de um jeep cruzando a trilha de lenhadores.
_ É o carro deles! Caiu no desfiladeiro adiante!
_ Então vamos embora. O problema com eles já foi resolvido.
_ Espera aí. Tem alguma coisa errada.
_ Vamos logo. Dá pra gente pegar um vôo de volta pra Londres até o final da noite. - falei sem enxergar direito quem estava em minha frente. Alguma coisa estava acontecendo com minhas vistas: claramente, enxergava uma mancha negra se espalhando pelo rosto de Vincent, e tomar a forma de gato.
_ O que foi, Mad Dog? Seus olhos estão vidrados. - Eu não sabia mais o que estava vendo. A paisagem ao redor parecia negra. As árvores tinham bocas bizarras, e braços compridos, com garras longas.
_ Mad Dog! - gritou Vincent. De repente, aquela visão se confundiu com a imagem das árvores comuns de sempre, o rosto de sempre que Black Cat tinha. Um rosto de gato? De homem?
_ Alguma coisa está errada.
_ Concentre- se em mim. É uma ilusão. Não posso libertá-lo dela, mas posso tentar desviar para uma outra que eu tenha controle.
_ Quê?
_ Lembra de Louise Ponton?
_ Sim.
_ É assim que eles iniciam um ataque. - Tudo o que eu não queria ouvir. Quer dizer que eu sou totalmente impotente contra um ser sobrenatural que está prestes a me atacar? De repente, via vultos negros pulando pelas árvores, nos cercando. Pareciam se multiplicar. Então, num lampejo, vi o rosto do tal de Randy. Saquei a arma, e atirei nos galhos da árvore.
_ Como é possível? Ele estava na mira!
_ Não use sua arma ainda, Mad Dog. Somente quando eu disser. Tome isso. - falou Vincent, me entregando uma espécie de raiz. _ Mastigue bem.
Pus na boca e mastiguei. No mesmo instante pude enxergar perfeitamente o que acontecia. Os dois estavam diante de nós, e Vincent me estendia um florete de prata, que esteve o tempo todo com ele e eu não percebi. Peguei, e jurei que me lembraria de perguntar sobre isso a ele.
_ Mad Dog, essa raiz te ajuda a manter o controle sobre a mente, mas ela ainda vai te pregar algumas peças. Tome cuidado.
_ Que coisa amarga é essa que você me deu? - Um vulto pulou sobre mim. Tive tempo apenas de girar o corpo para não ser pego por ele. Tentei atingi-lo com o florete, mas era tarde.
_ Uma raiz antiga! Uma raiz! Não prestou atenção no que eu disse?
_ Que raiz é essa?
_ Isso lá é hora pra discussões?! - Ele estava com um dos vampiros em cima dele. Enquanto tentava tomar o punhal das mãos do bastardo, o outro me acertou o tórax. Pensei que fosse desmontar ao bater nas árvores. Rindo de minha fragilidade, ele disse:
_ Vai ser mais fácil do que eu pensava.- Andando em minha direção, puxou seu florete e se lançou contra mim. Usei a peça de prata em mãos para me defender. Quanto mais rápido eu pudesse ser, melhor, porque ele não só sabia o que estava fazendo como também o que eu queria fazer. Levantando-me do chão com chutes, sem dar tempo para eu planejar qualquer coisa, ele disferia golpe após golpe, cada vez mais violentos. Tentou tirar minha cabeça com um golpe horizontal, e foi o que me deu alguma esperança: me abaixei assim que percebi, deixando que a espada defendesse o útimo resquício do meu pescoço que estava em risco, fazendo-o girar apenas o suficiente para atingi-lo sob o braço. As árvores começaram a balançar querendo lançar os braços contra mim. Tentei me desviar delas.
_ Mad Dog, concentre-se!
Black Cat estava sem arma. Víamos agora o chão se movendo, como se uma serpente gigante nos espreitasse. Via olhos se abrindo no chão. Percy desapareceu. Tentei chegar a Vincent, mas ele se tornou um felino gigante e desapareceu. De repente, algo me segurou pelas costas e me puxou para o alto de uma árvore. Quando pensava em sacar minha arma, ouvi:
_ Para um assassino de aluguel, você perde a concentração muito fácil.
_ Poupe-me desse tipo de comentário, Vincent.
_ Vocês não vão escapar! - falou a serpente, e abriu sua bocarra, disparando contra nós. Vincent saltou para a árvore mais próxima, enquanto via o local onde estava se tornar restolho. A oportunidade de acertar aquela cabeçorra não me deixou dúvidas do que fazer: puxei a arma e atirei.
_ Não, Mad Dog! - Imediatamente, um ser parecido com um morcego que escalava a outra árvore se lançou contra nós. Saltamos para a árvore ao lado, enquanto o ser perseguia uma presa imaginária. O cavalo corria de um lado para o outro lá embaixo, enquanto a serpente gigante o cercava. A última cena de que me lembro foi do sangue de nossa montaria jorrando, e as árvores voltando ao normal. Desmaiei, provavelmente por estar ferido. Não sentia a dor, mas já desmaiei por falta de sangue antes, e sabia que era o caso.


Dia 22 -   Estávamos no conforto de um pulgueiro de beira de estrada ao sul do aeroporto de Gulkana, em um quarto cujo aquecedor elétrico tinha pifado, motivo pelo qual a lareira voltou a funcionar nos últimos meses. Cobertores espessos e uma figura esquisita me costurando o tórax.
_ Cuidado com isso.
_ Silêncio, garoto. Você teve muita sorte por ter saído vivo dessa, mas nem tanta a ponto de já poder conversar. Parece que o florete de Percy era um pouco cego, deve ter roçado um pouco entre as costelas, o que evitou que chegasse ao seu pulmão, mas em compensação você foi envenenado. Está com os pulmões inteiros, mas o sangue não.
_ Será que eles não vão seguir o meu rastro até aqui?
_ Não, eu sou cuidadoso. Pelo menos com isso não temos que nos preocupar.
_ O que foi aquela coisa que você me deu?
_ Um pedaço daquele chocolate que trouxemos da viagem, mas tinha que usar de algum ponto de contato para te tirar da ilusão deles.
_ Não dava pra ser um ponto de contato mais doce não?
_ Eu não teria convencido seu subconsciente. - falou, rindo.
_ E de onde saiu aquele florete de prata?
_ Florete? Eu te dei um pé-de-cabra. - frustrante ouvir isso. Quase tudo o que vi era uma ilusão.
_ Então foi tudo mentira?
_ Foi.
_ A cobra, o morcego, o coitado do cavalo sendo estraçalhado...
_ O cavalo foi verdade. Todo o resto foi mentira. Descanse um pouco, e vamos conversar daqui a pouco. Você perdeu muito sangue, e apesar de ter conseguido um pouco com alguns contatos, você ainda precisa de um pouco mais. Por isso se sente ainda tão enfraquecido. Creio que esta aqui - falou, apontando para uma bolsa de sangue pendurada ao meu lado - e mais duas devem ser o suficiente para você recuperar algum vigor. Então, trataremos de assuntos sérios. Você precisa saber aonde está se metendo.
       Duas horas e meia depois, acordei, com curativos do lado esquerdo, e no braço direito. Um lanche caseiro me esperava do lado da cama, sem gordura nenhuma (merda), que é para os ferimentos cicatrizarem mais rápido.
_ Isso é pra mim?
_ Claro que não. Isso é pra mim. O seu eu já pedi e deve chegar em dois minutos.- Já era tarde: minhas mãos, relativamente limpas, já estavam sobre o sanduiche integral, e bebia a xícara de chá na bandeja.
_ Desculpa aí, mas eu estou com fome.
_ Não faz mal. Consegue se levantar?
Tentei me ajeitar na cama, e constatei que a ferida não estava mais doendo como da primeira vez que acordei. Meu sangue estava limpo?
_ Consigo sim. Estranho...
_ Você recebeu tratamento com sangue de um paladino. Foi sorte sermos compatíveis. Não fiz nenhuma transfusão, apenas usei uma emulsão com algumas gotas do meu sangue para fazer cicatrizar seu ferimento mais rápido. É a minha habilidade: além da altíssima capacidade de regeneração que eu tenho, ainda possuo a habilidade de curar. Isso explica como extraí o veneno em seu corpo. Temos pressa extrema de chegar na Europa. Recomponha-se e faça as malas.
_ Você disse que precisava conversar comigo sobre algo sério...
_ Sim.- falou Vincent, com um tom grave. - Esta guerra existe há séculos, e você precisa saber algumas coisas sobre ela, se quiser entender o que procuramos, e mais do que isso, escolher o que fazer do que já sabe.
_ Então diga.
_ É uma história longa, mais até do que o que vou te contar.
_ Então comece logo, para podermos arrumar as malas e partir.
_ Pois bem: os vampiros são extremamente hierarquizados. Respeitam acima de tudo a ordem das castas, mas mais do que todas as outras, respeitam as castas reais. São treze no total, e talvez tenha tempo de contar sobre suas origens, mas não agora.
     _Em 716, o pai de Denetor Benvorius, duque de Poitiers, se une ao nobre Lucius em uma aliança militar para proteger seus feudos, cedendo como sinal dessa aliança a sua filha, Lorien, tornando-se seu vassalo e parente. Lorien mostrou-se resistente ao gene vampiro - algo que só acontece com 0,0003% das pessoas que são contaminadas por eles -, o que deixou Lucius apreensivo. Se ele se livrasse dela, perderia seu aliado, de quem dependia para continuar a expandir seu poder e influência sobre a Terra da Idade Média. Se a deixasse ir, entretanto, seria descoberto, pois Benvorius não sabia que ele era um nosferato, e se soubesse, teria acionado os Paladinos para caçá-lo até a morte. Ele então utilizou de seu controle mental sobre ela, prendendo-a em uma ilusão até o dia em que faria um ritual para transformá-la em vampira.
        No inverno seguinte, ele obteve a data "astrologicamente perfeita" para o que pretendia. O ritual exigia que ele sacrificasse três vampiros de sua mesma casta para substituir o sangue dela pelo deles. Toda a vida desses vampiros, seus poderes, suas lembranças, tudo fluiu para Lorien naquele ritual, tornando-a a mestiça mais poderosa entre todos os mestiços, com poderes comparáveis aos dos próprios puros-sangues. Ela se tornou fértil, e a cada dez anos concebia, mas tinha sobre si uma maldição: também a cada dez anos, era acometida pela sede, e precisava beber do sangue dos seus próprios filhos para continuar viva. Por força do ritual feito naquela noite, ela não sugava apenas o sangue, mas toda energia vital dos seres que atacava. O ritual era usado para iniciar vampiros vivos, os filhos de Aset-Ka. Até hoje essa seita usa quase o mesmo ritual. Como tudo ao redor dela morria, ficou conhecida como "Rainha da Morte", ou Abadom.
_ Espera aí: vampiros vivos são aqueles caras que fazem um monte de caridade por aí, pra disfarçar que são vampiros?
_ Sim. Esses mesmos. Eles se alimentam da energia vital das pessoas. Lorien era duplamente vampira: se alimentava da energia e do sangue das pessoas. Talvez a vampira viva mais poderosa que já existiu.
_ Viva?
_ Sim. Pelo ritual dos Aset-Ka, presumimos que não machucaram ela. Foi transmutada viva, o que eu acredito que seja doloroso.
_ Tá. E o que tem ela com a nossa investigação? Não entendi até agora.
_ Uma coisa de cada vez. Em 23 de agosto de 884, ela dá a luz a duas crianças: Gretta e Syrus. Como de costume, dez anos depois ela foi escravizada pela sede, e se alimentou de sua filha, Gretta. Syrus presenciou a cena, e assim que teve chance, fugiu e pediu abrigo no mais improvável lugar para um vampiro: a Trinitá, a organização do Vaticano que se encumbia de investigar e matar vampiros. O único lugar onde Lucius ou Lorien não se atreviam a entrar. Ele foi o único vampiro que se tem conhecimento de ter vivido como paladino, se alimentando do sangue de animais. Fazia isso não porque era um bom vampiro, mas porque vivendo dentro da Trinitá sabia que seria morto caso atacasse algum humano.
_ Mas como você pode saber que ele não era realmente bom?
_ Porque ele mesmo falava. E outra coisa: os vampiros têm afeição pelos de sua própria espécie, mas ele não: se divertia com a morte dos outros que caçava.
      _ Em maio de 998, os vampiros, através de estudos elaborados por Lorien e compilados em um livro, hoje chamado de Livro Vermelho ou Livro de Abadom, descobrem uma data que era astrologicamente perfeita para obter a imortalidade plena. Até então, eles viveriam para sempre se não fossem atingidos por um punhal qualquer, por exemplo. Sangrariam normalmente, adoeceriam normalmente, só que teriam super poderes e super força, como hoje. Agendaram sete holocaustos ao redor de Londres, em sete cidades estratégicas, que formavam um heptagrama. Os Paladinos não conseguiram estabelecer um padrão, e portanto nenhum dos holocaustos foi contido. Foram cem mortos em cada cidade. Na virada de ano de 998 para 999, Lucius deu uma festa de final de ano que entraria para história principalmente por um detalhe macabro: os sete mil convidados seriam sacrificados entre a meia noite e as três da manhã. Como apareceram dois mil convidados, eles mataram aqueles que estavam presentes, e sairam caçando as outras cinco mil pessoas, casa por casa, até pouco depois das duas da manhã. Todos foram transmutados naquela noite.
        O último sacrifício foi feito às quatro da madrugada: o filho de Lucius, Syrus. Ele percebeu que estava indo para o sacrifício da última noite, e para se vingar, garantiu que seu sangue não seria puro para o sacrifício, mordendo um vampiro mestiço. Sangue de vampiros normalmente envenenam outros vampiros, exceto os  puros-sangues, como Lucius. Ele posicionou os seus doze generais, e concluiu o sacrifício, porém as coisas não sairam como ele imaginava: o altar de prata se derreteu, e minutos depois evaporou, e o vapor se espalhou por entre os vampiros presentes na noite do último sacrifício, que correspondia a quase cem por cento dos vampiros existentes. Presume-se que esse vapor seja a maldição que tornou os vampiros vulneráveis à prata. Se o ritual tivesse sido perfeito, eles seriam indestrutíveis, seus poderes se multiplicariam, eles poderiam andar de dia sem problemas.
      _ Lucius e os doze são os únicos que, mesmo se forem decapitados, não tem suas mortes garantidas.
_ Então os doze e o tal de Lucius são indestrutíveis?
_ Não, não são. Eles podem sim ser destruídos, mas nós não podemos deixar absolutamente nada dos seus corpos físicos. Veja bem: cinco séculos depois, batalhamos contra Lucius e os doze. Cortamos as cabeças de três dos generais de Lucius, mas eles sumiram com seus corpos. Como foram feridos com prata, presumimos que não puderam se regenerar. Entretanto, cremos que as mentes deles estão vivas, guardadas em algum lugar do mundo. O que eu presumo é que eles queiram ressuscitar os generais, porque afinal, é o intuito de Lucius desde que eles foram decapitados, e por isso eles guardaram os crânios. Tivemos notícias de que várias culturas adoram seus crânios como deuses. Provavelmente, eles usam  suas mentes para causar ilusões como aquelas que você viu, e isso impressiona o povo. Mas agora, a coisa mudou de figura. Tomara que estejamos errados, porque se eles descobrirem uma forma de ressuscitar os Três, teremos sérios problemas. E mais do que isso, precisamos descobrir onde estão os crânios e os corpos, para cremarmos antes que sejam ressuscitados.
_ Isso é um monte de história para uma viagem só.
_ A questão é: você se envolveu na guerra quando foi contratado para matar Bledsoe, mas se eu fizer o trabalho por você, pode sumir para qualquer lugar do mundo.
_ Vincent, você conhece o velho Mad Dog aqui o suficiente para saber que as coisas não funcionam assim. Eu não abro mão de um bom serviço, e também não vou trapacear, recebendo um dinheiro que eu não ganhei. Além disso, essa guerra vai me pegar independente de para onde eu vá.
_ Você não entendeu, Mad Dog. Algo não se encaixa: não há motivos para contratarem um homem comum para fazer o trabalho de um paladino. Eles devem estar armando pra você.
_ E por que motivo? Se fosse para ser pego por matar um homem,  por qual deles seria? Bledsoe não vai ser o primeiro nem o único a ser morto por minhas mãos, e não fui pego por causa dos outros. Por que seria pego por causa dele? eu sei fazer meu trabalho bem feito. Acho que essa preocupação é desnecessária.
       Ruminei aquela história toda por um bom tempo. Mesmo não querendo admitir, Vincent tinha razão: não havia motivos para alguém me contratar para matar aquele homem. Ou teria? Ele não era muito popular, por causa dos casos que defendia. Vai ver era um cliente vingativo, nada mais. Quem sabe alguma empresa me tenha contratado por seus motivos mesquinhos e egoístas. De toda forma, nada indica que terei respostas disso agora. Vou preparar minha mala para embarcar amanhã para Londres.


Dia 23 -  Embarcamos no começo da manhã para Boston, de onde faremos uma escala para Londres. Vincent falou o tempo todo de convocar outro paladino para essa mesma investigação, um tal de Von Haugh. Se ele é tão bom quanto disse, vai ser interessante trabalhar com ele.
_ Primeiro, vamos interceptar Dean Bledsoe. Se deixarmos esses planos chegarem às mãos de Lucius, teremos problemas.
_ Devíamos ter considerado isso antes. À essa altura ele já deve ter entregue.
_ Lucius está em conferência com os generais, em Calais. Volta somente no fim de semana. Temos ainda dois dias para planejar a ação.
_ Como você fica sabendo dessas coisas?
_ Algumas são maravilhas da tecnologia, mas outras, definitivamente não são facilmente explicadas. Um dia você entenderá.Quanto ao que encontramos no quarto de motel naquela tarde, mandei uma cópia para Von Haugh. Vamos nos encontrar com ele amanhã, no Centurion Bar, às 07:00 PM.
       Parecia que ele estava evitando me revelar algumas coisas. Odeio me sentir passado para trás. Se não tivesse um respeito muito grande por Vincent, talvez ele estivesse morto ou com a cara marcada. Em um negócio sério como esses, informação é uma coisa que pode te salvar ou condenar. Veremos se esse Michael vai me manter mais bem informado do que Vincent, porque do contrário terei um ataque cardíaco. Sou um pouco ansioso, e esse tipo de suspense me tira do sério.

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