Dia 19 - Outra vez aquele sonho. Mesmo depois de ter acordado, ainda parece que estou cercado, como se alguém ou alguma coisa naquele sonho fosse um eco da verdade. O despertador já está tocando a pelo menos quinze minutos. Eu o ouvia tocar, mas não conseguia abrir os olhos. Continuava preso naquele pesadelo.
Tenho uma pista do Bledsoe. Vincent conseguiu uma conversa por telefone ontem à noite, em que ele marca um encontro com americanos para discutir os rumos da nova conquista do seu cliente, Irwin Schiavo. O galpão onde funcionava a vidraçaria está sendo aos poucos desocupado, e eles precisam decidir o que ocupará o espaço vazio das máquinas e fornalhas vendidas. Em alguns minutos Vincent estará aqui.
Os dias anteriores foram de trabalho árduo: grampeamos os telefones fixos de sua casa e escritório, implantamos escutas no seu carro, e fiquei empolgado ao ouvir de Vincent que o nosso alvo tem uma escuta na pasta que ele carrega para todos os lados.
_ Temos todos os sinais de que esta não é uma reunião qualquer - disse Vincent, prevendo uma perseguição produtiva.- Ele estava ao telefone com Lucius Valmeck, um homem de negócios milionários, que vive oculto do sistema. Todas as comunidades ocultas que eu conheço o temem. Se pudermos saber porque um homem tão insignificante como Bledoe vai conversar pessoalmente com uma figura tão "importante" como Lucius...
_ Tem algum palpite sobre a pauta da reunião?
_ Não exatamente. Sabemos que uma das pautas será o novo destino do galpão, mas os americanos têm muitos negócios ocultos ao redor do mundo, principalmente os que fazem parte de castas nobres.
_ Sei...
_ Trouxe a munição de prata?
_ Não.
_ Então use estas aqui. Projéteis com nitrato de prata, que se diluem no organismo assim que penetram o alvo. É a única coisa realmente letal contra eles.
_ Não sei se vai ser necessário.
_ Talvez não, mas é melhor prevenir do que remediar.
Do lado de fora do galpão uma surpresa: os Aset Ka estavam vigiando a entrada. Eram altos e imponentes, com olhos orgulhosos como os de um faraó. Negros, com cabelos rastafari, camisas brancas, e a tatuagem característica no antebraço. Essa organização é responsável por dezenas de trabalhos filantrópicos no sul da ásia e no Camboja. No Reino Unido é conhecido por lutar arduamente pelos direitos humanos, e de fato possui nomes bem influentes em várias esferas do governo britânico, americano, europeu, etc. São marcados no antebraço direito com a cruz de Tamus. Muito bem vistos na sociedade pelo importante papel social que desempenham.
_ Não se engane com aqueles caras: são vampiros vivos.
_ Quê? - indaguei, rindo - Não acha que essa história é fictícia demais para levar crédito? Vampiros vivos? Existe isso?
_ Por acaso você sabe o que é o culto dos Aset Ka?
_ Não, mas deve ser como qualquer outra religião do mundo: tem seus fiéis e os seus fanáticos. Até o cristianismo tem os seus.
_ O culto a Aset Ka consiste basicamente em sugar energia vital de pessoas comuns e oferecer uma parte aos "deuses imortais".
_ De onde você tira essas coisas?
_ Passei anos da minha vida lutando contra eles, mas se não acredita, digite Aset Ka no Google e tecle enter. Vai se surpreender com o que vai achar.
_ Cara, não é que não acredite em você. É que, sendo isso verdade, muita coisa muda de figura - falei, mas mesmo depois disso, eu ainda vou fazer minhas próprias pesquisas, tanto na internet como com fontes históricas seguras.
Ligamos as escutas e nos concentramos na interpretação do que estávamos ouvindo. As primeiras frases foram futilidades, coisas sobre um restaurante do oeste da cidade.
_ Trouxe os nomes que eu te pedi?
_ Sim, mestre. Estão aqui: os melhores cientistas que pudemos agrupar para esta pesquisa. Nos infiltramos no projeto no Alasca, e estamos colhendo informações. A dupla infiltrada deve concluir seus relatórios em duas semanas.
_ E quanto a francesa?
_ Cuidamos dela.
_ Tem certeza de que ela não contatou ninguém antes da morte? Não podemos nos arriscar.
_ Certeza absoluta, mestre. Ela foi a única a saber, e agora não é mais motivo de preocupação. Há alguns dias atrás ela marcou um encontro comigo num motel próximo daqui. Cuidei dela por lá mesmo: peguei o cutelo e a mala no carro, coloquei o corpo nela e levei para ser cremada e cimentada.
A amante? Então aquela conversa no telefone foi apenas uma troca de codinomes? E ele a matou a sangue frio, pôs numa mala, cremou e cimentou! Cara, isso é horripilante! Mas ele é criativo: assim não fica quase nenhuma prova, porque o corpo simplesmente some. Agora, mais do que nunca, ele merecia morrer. Um ser como esses não deve andar solto nas ruas. Sua existência é uma ameaça para a segurança pública.
_ Descobriu quem é ela?
_ Sim. Na base de dados no Alasca ela se registrou com a identidade de Denise Parker, mas seu verdadeiro nome, pelas digitais que extraímos, é Louise Ponton.
_ Ninguém demais. Mas é bom sermos rápidos com o projeto. Pressione os informantes. Podemos ser descobertos a qualquer instante, portanto vamos ter que apressar as coisas.
Vincent ficou pálido. Acho que ele não esperava aquela notícia. Seus olhos bem que poderiam permitir lágrimas, mas ele não podia fraquejar naquele momento, diante de um assassino de aluguel.
_ Não é possível - respondeu ele - mataram Louise!
_ Quem é essa Louise Ponton?
_ Uma espiã dos paladinos.
_ Paladinos? No plural? Quer dizer que você faz parte de uma organização?
_ Não sou exatamente parte dela. Na organização, me chamam de Black Cat.
_ Black Cat? O lendário Black Cat?
_ Silêncio.
Do outro lado, continuavam a conversa:
_ Mas mestre, é muito pouco tempo, pode significar o fracasso total se eles falharem.
_ Se não tivéssemos extrema urgência em começar a replicar o projeto, não estaria te pressionando. Você parte amanhã para o Alasca para auxiliá-los com os meios que forem necessários para que, até o final da semana que vem, tenhamos começado os trabalhos por aqui.
_ Mas, mestre...
_ Não te dei a opção de negar minhas ordens. E desta vez, tenha certeza de que ninguém está te seguindo. Você quase foi descoberto no motel.
_ Mas como?.. S... sim... mestre...
Que coisa! Como poderia imaginar? Um advogado influente, arrogante, com o rabinho entre as pernas, tremendo de medo de uma figura que, pela voz, parecia ser tão comum. Afinal de contas, quem é esse Lucius Valmeck, que faz todos à sua volta dobrarem suas cabeças? E que informação era essa que Louise queria repassar para o mequetrefe? Tínhamos que saber. A conversa só foi até aqui, e apesar de muito produtiva não foi o suficiente.
_ Vamos, Vincent. Precisamos nos movimentar. Faremos uma viagem para o Alasca amanhã bem cedo.
_ Cautela, meu bom rapaz. Não podemos fazer tudo o que nos dá na telha. O mais prudente agora é irmos ao motel, procurar pistas de que tipo de informações Louise tentou vender ao Bledsoe.
_ Como assim? Está sugerindo vasculharmos o quarto de motel em busca de pistas?
_ Exato.
_ Seria inútil. A faxineira deve ter limpado o quarto depois daquela noite.
_ Conheço o bastardo. Não é cuidadoso, deve ter deixado algo para trás. E conhecendo Louise como conhecia, tenho certeza de que ela não se arriscaria tanto indo ao encontro de Bledsoe sem se prevenir. Deve ter deixado alguma pista no quarto.
Era um quarto simples de motel. Tinha uma televisão com serviço de TV a cabo, um aquecedor, banheiro, duas camas, um guarda-roupa embutido e algumas parafernalhas que enfeitavam a penteadeira. Olhando milimetricamente, era difícil ver qualquer coisa que pudesse ter sido deixada para trás. Vincent se agachou até o carpete, e parecia estar farejando alguma coisa. Puxando-o para o lado, foi possível ver marcas de cutelo no chão, entre as duas camas, e uma quantidade insignificante de sangue que marcou o interior das lacerações no piso de madeira. Harper procurava embaixo dos colchões, dentro dos guarda-roupas embutidos. Tive a ideia de olhar embaixo da televisão, e voilá! Um bilhete. Era o canhoto de uma correspondência enviada com assinatura registrada. O nome do destinatário segundo o canhoto era David Pullman.
_ Como eu imaginava. Ela foi de alguma forma impossibilitada de mandar informações relevantes para seu receptor, e enviou para outro. Vamos procurar David Pullman quando sairmos daqui.
Para nossa sorte, as faxineiras não eram tão zelosas assim em seu ofício. Encontramos algumas marcas de sangue, com impressões digitais bem visíveis na parte de dentro do armarinho do banheiro. Bledsoe devia estar procurando alguma coisa para limpar o lugar.
_ Vincent, notou que não existe sinal algum de luta?
_ Sim. É típico da raça deles. Criam uma ilusão para se aproximarem das vítimas. O pouco sangue que encontramos indica que ela foi mordida antes de morrer. Restaram somente algumas gotas em vasos linfáticos nas extremidades dos tecidos. Bom pra ela: uma morte sem dor.
A ventilação era muito ruim, e fazia um barulho anormal. Seria impossível dormir ali. Vincent se aproximou da saída de ar próxima da televisão. Nesse momento percebi que o barulho nela tinha um motivo. Estava com um parafuso a menos do lado direito, o que fazia a grade bater, e parecia que alguma coisa estava encostada na parede do duto. Vincent tirou um canivete, e abriu a entrada de ar. Havia uma pasta contendo desenhos de antenas, máquinas que nunca tinha visto antes, desenhos de moléculas, cérebros, e mais um monte de coisas de anatomia. Parecia o "projeto Frankenstein".
_ Já sabemos o que eles estão querendo no Alasca.
_ O que é isso? - falei, ainda tentando entender do que se tratava aquilo tudo.
_ Estão atrás do projeto HAARP. Precisamos agora saber o porquê.
_ HAARP?
_ Sim. Uma bênção e uma maldição, meu amigo. Você vai entender quando eu te explicar.
Entramos no carro em silêncio, tentando ainda juntar de alguma forma as peças desse quebra-cabeças, que ficava mais complexo a cada novo passo que dávamos. Não me agrada investigar demais o alvo, porque no fim das contas, muitas informações são irrelevantes. Temos apenas que saber quem, onde, quando e como executar. Não é muito do meu perfil perguntar, mas... as coisas definitivamente estavam diferentes. Se você soubesse que te esconderam uma verdade a vida inteira, não ia querer sabê-la? Se alguém estivesse realmente querendo aniquilar o mundo, você ficaria esperando a morte?
_ Vincent...
_ Sim.
_ Eu fico aqui pensando: se você tivesse uma pergunta cuja resposta verdadeira pudesse desmascarar muita gente...
_ Hum...
_ E essa resposta pudesse te custar a vida... Mesmo assim você ia querer saber?
_ Por que você está me perguntando isso?
_ É que quanto mais fundo vamos nesse caso... mais tenho a impressão de que não chegarei bem no fim da linha...
_ Não diga besteiras, Mad Dog.
_ Não posso evitar que essa interrogação me persiga, porque tudo até agora apontou para uma verdade que nunca achei que existisse.
_ Todos ficam chocados como você quando se deparam com a realidade. Não se preocupe, isso passa.
Não passaria. Era como se eu abrisse os olhos pela primeira vez: estamos no meio de uma guerra, e não podemos nos esconder dela, nem saber ao certo quando ou como seremos atacados. Se um homem qualquer sacasse uma arma e apontasse para minha cabeça, eu saberia como reagir e abater o infeliz, mas como lutar contra um inimigo invencível? E se lendas como essas são realmente verdade, o que mais será verdade? Esses pesadelos que me perseguem, será que são, como ouvi falar, um aviso de Deus para mim? E quanto a Deus? Será que ele NÃO existe mesmo, como dizem por aí? Começo a duvidar do meu ceticismo, e da capacidade que tenho de não ter sentimentos. Agora, me parece que o ceticismo é uma forma que o homem inventou de se proteger do inacreditável, do sobrenatural. De fato imagino que as coisas naturais existem como conseqüência das espirituais, e não me importa mais se faz sentido.
Com trinta e cinco minutos em silêncio dentro do carro, dezenas de semáforos depois, chegamos à casa de David Pullman. Ficava ao lado de uma igreja presbiteriana, e transpirava uma paz incomum para alguém do nosso mundo de sangue. Ele não era um assassino, de forma alguma. Chegou à porta com um sorriso espontâneo. Me senti um pouco acanhado de abordar um assunto tão macabro com alguém como ele, por isso fiquei calado, enquanto Vincent falava. Me arrependi um pouco disso, porque logo depois de ter trazido um pouco de chá, Vincent começou a bombardeá-lo, sem nenhuma cerimônia, com perguntas subjetivas sobre o assunto.
_ O senhor conhecia Louise Ponton?
_ Desde a minha infância - disse ele com o mesmo sorriso - porque congregávamos na mesma igreja. O pai dela era o pastor, e o meu tocava órgão, então estávamos sempre na escola dominical todos os domingos de manhã. Nos tornamos missionários juntos. Foi quando ela se mudou para a França, e eu fui para o Camboja.
_ Ela te mandou uma correspondência. Você recebeu?-falou Vincent. David ficou apreensivo, olhou desconfiado para nós.
_ Por que está tão interessado em Louise Ponton?
_ Perdoe o meu amigo. Nós estamos investigando alguns fatos que ocorreram recentemente. Conhecíamos Louise, e acreditamos que ela foi vítima de uma organização criminosa.
_ O que aconteceu com ela?
_ Faleceu há duas semanas atrás. - disse Vincent, rispidamente. A luz nos olhos do sacerdote foram aos poucos sendo substituidas por lágrimas. Um silêncio condolente sinalizou nossos pêsames, e derreteu o semblante de caçador de Vincent, que olhava para David como que com um pedido de desculpas em mãos para ser assinado.
_ Como isso aconteceu?
_ As circunstâncias são estranhas. Pelo que conseguimos apurar , uma organização multimilionária descobriu que ela estava espionando um de seus investimentos, e contratou um assassino de aluguel para dar cabo dela. O sujeito drenou o sangue dela...
_ Vampiros! Pobre Louise.
_ Lamento.
_ Ela foi transformada?
_ Sr.Pullman... - tentei desviar o assunto.
_ Eu sei que vocês são paladinos. Não precisam fingir que estão falando com um leigo.
_ Entendo.
_ A última vez que nos falamos ela estava em uma viagem ao Alasca. - disse ele. Perguntei:
_ Recebeu alguma correspondência dela?
_ Nâo. Houve uma pane nos correios, as correspondências atrasaram três semanas. Os serviços vão normalizar amanhã.
_ Você também tem algum cargo?
_ Sim, sou um escudeiro. Louise é que não era. Assim que a correspondência chegar, entrarei em contato com vocês para avisar. Ponto oito cinco dois, às quartas.
_ Obrigado. Amanhã vamos para o Alasca, ver o que descobrimos. Assim que voltarmos, daremos notícias no mesmo ponto de acesso.
_ Vamos pegá-los.- disse ele, retedo as lágrimas.
_ Boa tarde.- disse Vincent, enquanto se virava para ir embora.
Nas malas não levamos armas, por isso sempre temos algum lugar em países-chave como os E.U.A onde guardamos armamentos. Temos tudo pronto. Partimos ainda esta madrugada. Chegaremos antes do mequetrefe. Fiz uma promessa a David, que embora pareça simples, vou cumprir até o final desta missão:
_ Fui contratado para matar justamente o assassino de Louise Ponton. Prometo a você que vou terminar meu serviço, agora não só pelo dinheiro, mas por vingança.
Embora ele tenha falado algumas frases cristãs sobre "a vingança pertencer a Deus", pareceu ficar feliz por saber que o criminoso não ficará impune. Ele sabe que não posso voltar atrás. Assim será.
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