Dia 14 - Não sei direito o que pensar disso. Em um momento tenho a execução perfeita, e no outro descubro que o alvo está vivo e sadio. Para um homem marcado, ele estava muito seguro e natural na televisão, como se nada tivesse acontecido. Imagino agora que ele foi capaz de defender um psicopata porque é como eles: sem afeição humana. No motel não havia um sinal sequer de que alguém havia sido morto ali: nada de sangue, ou tiros, ou corpo. Nada nos obituários, nada nos telejornais locais, nas emissoras de rádio... Nada. Foi apenas um sonho muito parecido com o real. No meu novo endereço em Londres, sob um nome e identificação falsos, encontrei uma caixa com a lendária munição me esperando. Preciso de algo que me diga que não me enganei. É frustrante para um profissional como eu admitir que gastei tanto tempo e dinheiro em uma coisa que não aconteceu. Por isso fui atrás do Chrysler que foi atingido naquele dia. Ele existe e tem ainda uma marca na roda, do tiro de .30. Se o bastardo ainda está de pé, tenho que saber o que está acontecendo, por isso vou precisar de respostas antes de continuar. O cliente “esqueceu” de me falar alguma coisa que eu preciso saber, mas não é possível entrar em contato com ele, portanto a segunda opção é pesquisar.
Conheço um cara que talvez possa me responder. Ele é um tipo peculiar, e conta histórias bem aquém deste mundo, mas para quem não tem resposta nenhuma para algo tão bizarro eu não posso me dar ao luxo de descartar possibilidades. Vamos somar: um, o cliente mandou balas de prata para usar na execução do alvo; dois, o cara em quem atirei - que estava com os miolos espalhados no chão - está vivo e dando entrevistas. Embora não seja racional, estamos falando de uma lenda que ronda a Europa Ocidental desde o século XIV. Amanhã tenho um encontro marcado no Buffalo Bar: vou falar com Vincent Harper.
Dia 15 - No exato horário em que marcou, Vincent Harper sentou-se em minha frente. Curiosamente, suas feições não tinham se enrugado nem um pouco desde que o conheci, há quinze anos atrás. Ele tem as mãos marcadas de alguns serviços que fez, e um cabelo longo, liso e desgrenhado preso por uma tira de couro. Dizem que Harper é holandês, mas nada nele denuncia isso. Foi criado, segundo as lendas, por um grupo de eremitas, monges ou coisa assim, para ser um caçador implacável contra aberrações da natureza. Aparentava ter no máximo trinta anos. Gostava de usar óculos arredondados, desde que o conheci. Seu estilo não o deixava se camuflar no meio das pessoas, porque parecia que ele tinha terminado de se arrumar para sair com um século de atraso. Usava palavras mais polidas para falar, e tinha sempre uma Bíblia Sagrada junto dele. Suas armas estavam sempre camufladas em sua indumentária de caçador, e só se poderia descobrir se ele as usasse. Seu olhar é sempre desconfiado e austero, como se esperasse, cansado, por uma presa que nunca fosse aparecer. Alguns mais antigos o chamam de paladino, talvez por causa da forma dele conversar e escolher os serviços que fazia. Todos sabem que ele é um caçador de recompensas, mas ninguém consegue entender que critérios ele usa para escolher os alvos, porque mesmo sendo o melhor de Londres, ele nem sempre escolhe o alvo mais caro, como os outros, e às vezes passa meses sem um. Chego a pensar que corro risco de vida em frente a ele, não sei por quê.
_ Queria me ver?
_ Um dia, você comentou comigo sobre uns serviços que fez na Bélgica.
_ Hum... entendo. Então você recebeu um serviço daqueles?
_ Sim.
_ Vamos primeiro tomar um café. Falamos sobre isso no caminho.
Ele deve ter notado minha ansiedade, apesar de eu ter evitado atitudes que demonstrassem isso. Falamos sobre assuntos fúteis, muito diferentes do que realmente interessa. Quando terminamos saímos para dar uma volta.
_ O que aconteceu?
_ Fui contratado para eliminar um cara complicado. O fato é que, depois de ter executado o sujeito vejo-o perambulando normalmente pelas ruas de Londres.
_ Entendo.
_ Não sabia o que dizer para o meu cliente: uma hora morto, e na outra não. Como assim?
_ Tem certeza de que o tiro foi fatal?
_ Com o primeiro de Dragunov no peito e outro de Desert Eagle na cabeça, com munição de ponta oca, não existe a possibilidade de alguém sobreviver.
_ Realmente.
_ O cliente me mandou balas de prata para executar o alvo. – falei, esperando alguma reação dele. Com naturalidade, ele terminou o seu capucchino e jogou o copo descartável no lixo.
_ Qual é o nome do seu alvo?
_ Você sabe que não posso falar.
_ Então quer dizer que você não precisa de minha ajuda.
_ Que história é essa? Você sabe muito bem como funciona esse jogo.
_ Por isso mesmo você deveria considerar que é necessário me dizer o nome do seu alvo: você sabe que não te perguntaria isso se não fosse realmente necessário. – me disse, sem alterar uma vírgula da expressão tumular de seus olhos. Relutante, demorei um pouco para dizer:
_ Dean Bledsoe.
_ Quê?
_ Dean Bledsoe, o advogado.
_ Escuta, Mad Dog, pode parecer suspeito dizer isso para você porque eu sei que ele tem uma recompensa daquelas pela sua cabeça, mas se for como estou pensando,te armaram uma bela cilada.
_ Imagino por que você pensa isso...
_ Porque além de ser muito influente, ele está sempre dez passos adiante. Ninguém consegue tocar o bastardo. Só neste mês, perdi dois bons amigos que estavam no encalço dele.Até hoje não consegui encontrar uma boa brecha para pegar o maldito.
_ Eu já imaginava que ele fosse ser um trabalho difícil, mas não podia recusar. Agora não posso voltar atrás. Bem, já que você também está atrás dele, vamos fingir que não tivemos essa conversa, e quem matar ele primeiro vai atrás da recompensa. Sem ressentimentos, okay?
_ Você não entendeu. Lembra das histórias que eu contei para você da última vez?
_ Sim.
_ Ele é somente a cortina de todo o espetáculo. Não é muito forte, mas é esperto e desenvolto. Seja o que for que a Irmandade está tramando agora, ele é peça fundamental. Forças além do nosso alcance estão em favor dele. O que sei é que tocar nele é como mexer em um ninho de vespas. Você não tem qualquer idéia de onde está se metendo. Abandone o quanto antes o caso, ou vai se arrepender.
_ Já fui longe demais, não é possível voltar. Supondo que eu fosse covarde o suficiente para isso, acabaria morto por um amigo seu.
_ Meu jovem, lamento te informar, mas de um jeito ou de outro você é um homem morto. – falou o paladino, com olhar consternado de sempre. Uma pausa. Significativa, inclusive. Graças àquela frase, agora a tarde tinha um ar agourento.
_ Não tenho nada a perder. Já que é assim, vou lutar até a morte. – falei, resoluto. De repente aquele Vincent desapareceu, e vi um outro, e seus olhos cansados agora pareciam ter vislumbrado o que esperavam.
_ Quer trabalhar comigo nisso? Vou assumir o bastardo com você.
_ Quê? Num momento você diz que perseguir esse homem é morte certa, e no outro se propõe a juntar-se a mim? Não entendo bem isso, mas acho que a resposta é óbvia. Mas a recompensa é minha.
_ Meio a meio.
_ Não vai dar nem pra palitar os dentes.
_ Vai por mim: em suas mão não existem dedos para quantos dígitos esse cara vale.
_ É sério isso?
_ Não, é só uma hipérbole. Mas se compara a ganhar na loteria.
_ Bom, na verdade não estou em posição de negociar. Claro que aceito... Minha cabeça livre da guilhotina da Sociedade de Caçadores de Aluguel, e alguns milhões para brincar no Caribe?.. isso parece bom.
_ Meio a meio.
_ Não vai dar nem pra palitar os dentes.
_ Vai por mim: em suas mão não existem dedos para quantos dígitos esse cara vale.
_ É sério isso?
_ Não, é só uma hipérbole. Mas se compara a ganhar na loteria.
_ Bom, na verdade não estou em posição de negociar. Claro que aceito... Minha cabeça livre da guilhotina da Sociedade de Caçadores de Aluguel, e alguns milhões para brincar no Caribe?.. isso parece bom.
_ É por isso que os homens fazem coisas incríveis em seu breve suspiro de vida: porque são mortais. Apostar suas vidas é o que extrai deles tudo o que têm.
Fizemos, na verdade, um acordo. Ele está investigando uma organização que existe há muito tempo, e se ocupa em uma conspiração mundial, que Vincent chama de Plano. No melhor do estilo “uma mão lava a outra”, eu vou ajudá-lo a investigar essa organização, e ele me ajuda a dar um fim no cara. Ele não pode me deixar apagar o homem antes de conseguir o que ele sabe, e eu não posso deixá-lo viver. Amanhã vou em busca de informantes e novas escutas, grampos e outros artifícios para descobrir a parte de Bledsoe no Plano.
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