Diário-relatório de Mad Dog:
Dia 1 - Eu continuo tendo aqueles pesadelos. É estranho como o imaginário se dissocia com a realidade. Eu teria medo, se não precisasse descartá-lo para sobreviver. No sonho, eu sou preso pelo assassinato de quase cem pessoas. Até parece um presságio.
Recebi outro trabalho: seu nome é Dean Bledsoe, um advogado multiuso que defendeu Robert Kingsley Hook, o “Bizarro”. Ele conseguiu fazer com que um psicopata se passasse por doente mental, que ao invés de pegar perpétua foi mandado para uma clínica psiquiátrica. Cá pra nós, é uma pena matar um cara desses, porque eu bem que posso precisar dos talentos dele futuramente.
O caso teve repercussão mundial, e depois desse ele defendeu alguns outros bem conhecidos. Ficou notável, o que significa que eu posso ter problemas grandes se fizer algo errado, principalmente porque se eu for preso, a mídia não vai largar do meu pé. Em casos famosos como esse a polícia deixa a imprensa deitar e rolar, o que ridicularizaria totalmente o trabalho de um profissional como eu.
Esse Bledsoe... Confesso que admiro o advogado que ele é. Eu conhecia o Bizarro desde moleque, e o garoto era o gênio do mau em pessoa: manipulador, insensível, falso. Várias vezes o vi torturar animais, pregá-los na parede, eletrocutá-los, afogá-los. Ele sempre gostou de matar. Eu faço isso por dinheiro, mas ele o faz por prazer. Dean organizou uma defesa tão bem elaborada que o júri quase chorou de pena do assassino safado. Dois anos depois, o Bizarro matou brutalmente os enfermeiros da clínica onde ele se tratava, pregando e empilhando os corpos numa obra de arte à altura do seu apelido, e sumiu no mundo. Quando a polícia tinha notícias dele em um lugar, ele já estava em outro. Foi assim até o ano passado, quando ele foi morto numa perseguição.
Não vou me identificar de verdade para ninguém, é óbvio. Regra número um dos negócios: manter o anonimato. Neste diário vou deixar que me conheçam por “Mad Dog”. É só um apelido que me deram no ano passado.
Bom, a primeira coisa a se fazer é pesquisar o alvo. O meu cliente me mandou fotos, endereços e um cheque de seis mil dólares como adiantamento.Veio também uma lista com os telefones e endereço do escritório dele. Vou grampear seu telefone, para reproduzir sua agenda. Assim, encontrarei uma brecha de tempo para executar o serviço, e calcular o método mais seguro.
Dia 2 - Lá está o Gilbert. Ele é um gênio da informática que sabe alguns truques, como grampear telefones. Trabalhou dois anos como técnico de uma empresa de telefonia, e hoje ganha a vida fraudando bancos do mundo inteiro pela internet. Se eu fosse inteligente como ele já teria mudado de profissão: ele arranca dez mil dólares de um banco em vinte minutos.
_ E aí, chefe? – disse ele.- O que vai ser agora?
_ Preciso de um "computador" novo. – falei, deixando um envelope em suas mãos.
_ A "configuração" está aqui?
_ Sim.
_ Pode deixar, que a gente te entrega. Pra quando?
_ Esta tarde, se possível. É um projeto que requer uma certa urgência.
_ Estará pronto às sete.
_ Ótimo.
Eu o contrato para fazer o que eu não faço. Da casa abandonada na quadra de baixo, eu posso espionar o alvo. Enquanto isso, sigo ele para identificar um local e um método. Eu sei que posso matá-lo em seu escritório – ele é sempre o último a sair -, em sua casa ou durante o trajeto. Tracei as prováveis rotas que ele faz do escritório para casa e vice-versa, mas nada melhor do que ele mesmo nos mostrar o caminho.
Ele saiu do escritório e entrou no carro. Demorou um pouco demais antes de ligar – devia estar no celular. Entrou na primeira rua à direita e seguiu em frente por pelo menos dez minutos. Diferente do trajeto que tinha imaginado, ele entrou em uma rua à esquerda e a primeira à direita, e parou em frente à uma praça. Numa lanchonete de esquina, ele se encontrou com alguns amigos. O movimento na praça é escasso, portanto este local será uma possibilidade. Já é quase noite, as árvores fazem ainda mais sombra, e o barulho nas avenidas ao redor minimiza o do estampido. Posso ainda utilizar uma arma fria, se for executar o sujeito no carro dele. Do outro lado tem uma construção, e o prédio é alto o suficiente para me dar uma boa visão do alvo, mas as árvores podem atrapalhar. Matá-lo dentro do próprio carro pode implicar em luta e produção de provas contra mim, como material genético, testemunhas, objetos, etc. Posso ainda atirar do meu próprio carro, o que é igualmente arriscado.
Matá-lo aqui, apesar de ser possível, implica em um risco que não devo correr. Será minha última alternativa. Enquanto espero aqui, estou analisando a planta da casa dele. Muito moderna, com seis quartos, sendo três suítes, duas salas, dois closets, quintal espaçoso, área de serviço, área de churrasco, uma piscina grande... Sistema de alarme driblável, janelas grandes de vidro, que posso cortar com diamante, cerca elétrica (ridículo), um cão de guarda (sedativos)... Pena que, até onde eu sei, a família não vai sair e deixar ele comigo. Eu entraria em sua casa, sedaria o cachorro e jogaria na piscina, entraria pela janela do quarto de hóspedes - que não tem alarme – executaria o alvo, roubaria algumas coisas, jogaria na casa de um traficante e esperaria a imprensa noticiar o ocorrido.
Ele despediu dos amigos. Um deles entregou uma papelada, falou algo em particular com ele, e o despediu. Fora isso, nenhuma novidade no trajeto. Na verdade, ele não usa lugares pouco movimentados para chegar a sua casa. Aquilo parecia ser esporádico. Então, já que não existe ainda uma brecha boa para executar o alvo, vamos buscar o “computador”.
Dia 11 - Foi uma semana de grande progresso. Descobri através de um telefonema recebido de um amigo dele que no final de semana eles vão a uma chácara no meio do nada – minha melhor chance. Descobri ainda que ele tem uma amante, e próximo da chácara um quilômetro e meio existe um motel. Ele planeja ir com a família para a chácara na sexta-feira, e no sábado de manhã vai fazer uma visita ao motel, onde sua amante estará à sua espera. Ele vai dizer que precisa voltar à cidade para pegar alguns documentos com uma testemunha do novo caso. Sabe de uma coisa? Perdi totalmente o respeito por esse calhorda. A família dele não merece isso: ele tem uma esposa linda, devotada e submissa, apaixonada por ele, e filhos educados e inteligentes. Não é justo. Parto para o local de execução uma hora depois deles. Vou deixar um envelope para a viúva, com fotos do Bledsoe e sua amante, para ela não chorar pelo bastardo.
Hoje recebi outra encomenda do cliente. Uma caixa com munições. Pelo menos umas dez de cada calibre. Para pistolas, tenho. 40 e.50; para fuzis, tenho. 30 e.50 (.50é um exagero, porque o carro do alvo nem é blindado). Parece munição traçante, com projétil vermelho, com algumas inscrições na base, próximo da cápsula. Vou levar a Dragunov e a Magnum Desert Eagle comigo: uma para abater e a outra para o tiro de misericórdia, caso seja preciso. Qualquer coisa a mais é exagero. Não seria necessário mais que três tiros, e isso se eu fosse um amador. Vou arrumar tudo e me dirigir à minha posição. Até o final da noite o Phill estará lá com o bote.
Dia 12- Conforme o planejado, ele veio ao motel. Não preciso de pressa: ele vai ter seu encontro normalmente com a amante, e voltar. Quando puser a mão no bolso para pegar as chaves do carro eu atiro. Se atirar nele antes, a amante vai descobrir o corpo muito rápido e não vou ter tempo de fugir. Em ambas as armas instalei um silenciador, e estou a trinta metros de onde ele estacionou o carro. É perfeito. A alguns metros daqui está o bote do Phill, que vou usar para escapar. Vou de bote até o mar, há cerca de vinte e cinco quilômetros daqui. Um helicóptero vai me levar até Dieppe, e de lá sigo para a França, para pegar um vôo para os Estados Unidos. Chego em três horas e meia até Paris, se tudo correr bem, e pego meu vôo até as cinco da tarde.
Ele saiu, e se pôs bem na mira. Esperei ele tirar as chaves do bolso. Mal tinha ele puxado o molho de chaves, apertei lentamente o gatilho. Acertei o seu pulmão, porque o retrovisor de uma Ranger atrapalhou um pouco minha visão da cabeça dele. Corri entre os carros com a Desert Eagle. A única alteração que fiz no plano original foi trocar a munição da pistola por uma com ponta oca, que é feita para mutilar. Quando cheguei perto dele, tive a impressão de que ele me encarava e ria, com a boca ensangüentada, me jurando vingança com os olhos. Não é a primeira vez que isso acontece, por isso não fiquei impressionado. Atirei em sua cabeça com a .50, e vi seu cérebro se espalhando no chão. Pronto, agora é a parte dois do plano: fugir.
Dia 13 - Recapitulando o que foi feito: antes dele chegar - e depois também - verifiquei que não havia testemunhas ao redor dele. Já mencionei que o cérebro dele estava espalhado no chão do estacionamento? O tiro que o atingiu no peito se encravou na roda traseira de um Crysler, cujo alarme não disparou (um Crysler sem alarme? Que barbaridade!). Dois tiros, duas cápsulas, que estavam em minhas mãos até o momento de jogar as armas e munição no mar. Entrei no mato, pilotei o bote até Seaford, onde peguei um helicóptero até Dieppe. De lá fui à Paris, de onde tomei meu vôo para os Estados Unidos. Todas as armas foram desmontadas e lançadas no mar. Nesse momento percebi que a munição que usei no fuzil foi a minha, e não a que o cliente me enviou. Não sei por que ele queria que eu o matasse com aquela munição, mas enfim era a menor das minhas preocupações naquele momento. Tenho por tradição o hábito de remover os projéteis antes de descartá-los. Quando o fiz, percebi que o cliente me mandou projéteis de prata. Muito estranho: será que ele achava que o cara é um lobisomem, ou coisa assim?
O Sr. François Amodieu - que se parece comigo, mas eu tenho barba – desembarcou numa bela noite de domingo em Boston. Tudo o que eu precisava trazer veio antes e se estabeleceu em uma casa simples, com aquecedor a gás, bastante mantimento, água, luz, TV a cabo, mobília e tudo mais que eu preciso para viver aqui como cidadão norte-americano por alguns meses. Liguei a TV e pus num canal de notícias inglês. A reportagem (ao vivo) que estava passando me paralisou: uma vidraçaria chamada Flecht. S.A faliu, e o seu dono foi acusado de desvio de verba, diz o jornalista. Foram quase dois milhões de dólares. Não foi isso que me assustou, mas o fato de que o advogado da outra parte era ninguém menos que Dean Bledsoe, que defendia o Sr. Irwin Schiavo, da máfia russa, alegando ter reunido provas suficientes contra o dono, Arthur Flecht. Já contei que o cérebro do cara estava espalhado no chão? Aquilo era bizarro demais para mim: será que eu matei um irmão gêmeo, ou um clone? Que corpo era aquele, que antes do último tiro praguejou em pensamento contra mim? Enquanto ainda tentava absorver essas informações, recebi uma ligação:
_ Você não disse que tinha concluído o serviço?
_ Não sei o que dizer. Eu tenho cert... Bem, eu vi o cérebro dele espalhado no chão...
_ Usou a munição que te enviamos?
_ Troquei por acidente. Se parecia muito com minha munição traçante...
_ Existe uma razão para nós termos te enviado a munição. Ela foi feita para pessoas como Dean Bledsoe, entende? – falou a voz do outro lado, bastante alterada.- Ouça, Sr. Mad Dog. Se não terminar o serviço, será caçado pelo dobro da quantia que negociamos para esta transação. Vamos pendurar seu nome na lista da Sociedade, com o valor de 40.000 dólares.
_ Não se preocupe. Eu não vou errar outra vez. O sujeito não teve sequer a oportunidade de ver o meu rosto, ainda posso me atrever a rodear ele um pouco mais.
_ Acha que ele não te reconheceria se você se aproximasse dele? Não seja idiota. Isso não faz a mínima diferença para Bledsoe. Amanhã te enviaremos um novo carregamento de munição especial. Desta vez, faça uso dela.
_ Espere. Por que tem que ser com munição de prata?
_ Você não foi pago para fazer perguntas. – e desligou. Seco, como só um americano sabe ser.
Ter o meu nome na lista da Sociedade dos Caçadores de Recompensa não é nada bom. Todo meu conhecimento vai ser insuficiente, porque existem caras muito melhores que eu, um mero e solitário mercenário. Por mais arriscado que seja, tenho que terminar o que comecei. Vou voltar para Londres amanhã.
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