quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Capítulo I - Um Novo Concílio

           Uma manhã realmente maravilhosa. Os apartamentos daqui de Londres possuem um charme fora do comum. Acho que é porque eu sou um pouco obcecado por coisas antigas, e Londres é cheia disso. Moro a algumas centenas de metros da Eaton Square, e tem um restaurante que consigo ver daqui, e lá embaixo vejo uma cena que se repete há centenas de anos, desde que me lembro: um jovem rapaz conversa com uma moça. Eles sorriem, se divertem como dois meninos numa praia.
Tenho um cão pastor belga chamado Ruppert, que sempre me acompanha. Assim como eu, ele tem lá suas centenas de anos. Como de costume, está latindo impaciente, protestando pelo seu passeio matinal. Quero terminar o leite, como uma pessoa normal, e isso merece um pouco de silêncio. Mesmo a contragosto – porque reclamar de barulho parece ser coisa de uma pessoa cheia de velhice -, resolvo conversar com ele:
_ Fique quieto, Ruppert. Observe ali embaixo. – disse, enquanto virava a garrafa de leite. Ele observa o casal, e pelos olhos dele presumo que teve a mesma constatação que eu.
_ Ele é um pobre demente, e ela uma caçadora de encrencas. Entende onde isso vai dar?
Com a pata sobre a minha mão, ele expressa uma opinião, carregada de sarcasmo – se é que ele tem uma personalidade parecida com a do dono – e volta a sala.
_ Exatamente. Mais um capítulo da novela ‘desculpas do dia seguinte’. Não entendo como os relacionamentos hoje se tornaram coisas tão banais. Quem dera se hoje fosse como antes, em que os noivos só se conheciam no dia do casamento, e se beijavam pela primeira vez, ainda virgens, em sua noite de núpcias.
            Ruppert me segurou pela camisa, puxou com aquela delicadeza de cão que ele tem, e tentou me fazer sair do lugar.
_ Eu sei, Sr. Encrenca. Todo esse tempo comigo e você não aprendeu nada a meu respeito? Não me interrompa enquanto bebo o meu leite. – falei enquanto me servia do último copo.- Deve ser a única coisa normal que vou fazer hoje, porque o resto do dia promete...
            Fui tomar banho. Estar debaixo d’água me traz um certo alívio, me ajuda a pensar. O banho é um momento terapêutico para um caçador. À minha esquerda a máscara de prata, que me acompanha desde que me entendo por gente. Uso como um selo sobre a face, que me impede de provar sangue e me tornar um vampiro. Todo paladino tem um voto, e o meu é de usar esta máscara por toda a eternidade. Quem entra no meu banheiro não deixa de notar também que bem embaixo do chuveiro tenho uma espada de prata. É a única coisa realmente letal para os vampiros, não sei exatamente o porquê. Somente um vampiro até hoje está vivo, mesmo tendo prata dentro do organismo, e ele é assustador, mesmo para mim que sou imortal.
_ Vamos Ruppert. Preciso trocar sua coleira. – Ele sempre protesta ao retirar a coleira de corpo que veste habitualmente. Vampiros não gostam de prata, e ele sabe que a coleira dele aumenta suas chances de sobrevivência a um ataque. Além disso, quando ele era pequeno coloquei pequenos fios de prata nos dentes.- Pare com isso, garoto, você sabe que é necessário. Olha só: debaixo do couro desta aqui eu pus prata também. Acha que vou deixar meu parceiro desprotegido? – Pronto, parou de tentar fugir.- A propósito, hoje nós vamos correr no Chester Square, e de lá é que vamos para o Eaton Square.
            Como qualquer passeio, almoço ou coisa que valha na vida de um paladino, nada é sem querer ou coincidência. Não tinha escolhido o Chester Square por capricho, e sim porque precisava buscar algumas informações. Só sabia que tinha alguma coisa a ver com o Plano, e pelo visto, também tinha alguma coisa a ver comigo, porque recebi uma mensagem em caelis com os dizeres “você precisa voltar à sua missão”, e o local onde o envelope estará.
            Saímos, correndo em direção ao ponto de acesso (o nome que damos para lugares onde trocamos informações), e passamos pelo casal que estávamos observando. Antes disso, lá do terraço, tive a oportunidade de vê-los se aproximarem um pouco mais. Agora eles se beijam. Parece até amor. Pelos dois, torço para que, mesmo à maneira distorcida deste século, encontrem a felicidade que somente um bom casamento pode oferecer. No parque as pessoas fazem exercícios, conversam com os amigos que vão encontrando, brincam com o cachorro, levam os filhos para passear. Outros cruzam, apressados, as trilhas mais curtas que levam ao outro lado do parque, para chegarem menos atrasadas em seus trabalhos. Devem ser estrangeiros em seu primeiro emprego em Londres. Guardas passeiam em sua ronda, e eu, paro para me alongar nas escadas da igreja de St. Michael, enquanto Ruppert pega o envelope pardo no canto esquerdo da escadaria. Depois de corrermos pelo Eaton Square encontrei uma lanchonete onde pude analisar com calma o conteúdo do envelope. Com um jornal para disfarçar, coloquei os documentos dentro dele e comecei a ler. Em um breve bilhete, eu lia em Caelis: "Estamos em tempos em que não se deve confiar em tudo o que se ouve. Precisamos saber para onde olhar e o que perguntar. Este é o nosso cerne. Centurion Bar, às 07:00 PM”. O resto dos documentos mostravam um aglomerado de antenas em um lugar quase deserto no Alaska. Havia ainda algumas referências a um efeito psicológico inusitado sobre o cérebro humano, e mais um monte de coisas que eu já cheguei a ler na internet. Não fazia muito sentido, sobretudo porque eu investiguei esse experimento por quase seis anos, sem achar uma evidência sequer de que estivesse envolvido no Plano. Até aqui, tudo parecia ser exatamente como havia previsto: tédio, espera e mais um pouco disso o dia inteiro. Entretanto alguma coisa estava para acontecer. Se algo do que li for real, então temos um monstro, e isso deve significar, conhecendo bem aqueles imundos, que estamos prestes a ver um novo “herói,” o que não é bom.
            Quando pensava que o dia não poderia ser interessante, vejo pela janela lateral uma figura de terno e gravata, óculos redondos, escondendo sua calvície com um chapéu redondo, assobiando desajeitadamente uma melodia enjoativa, transpirando uma longa e fria malha de morte. Um vampiro, e muito conhecido pelos seus serviços a assassinos e ladrões associados com a Irmandade.
_ Peguei você. Não vai me escapar agora, Dean Bledsoe.
            Dean Bledsoe é um advogado mequetrefe que está defendendo um bruxo da Irmandade. Não posso perder a oportunidade: geralmente, eles moram em lugares isolados, perfeitos para levarem uma surra até abrirem o bico. Os figurões da irmandade fizeram um péssimo negócio e faliram uma empresa. O interessante é que eles têm muita experiência no ramo de vidraçarias como a Flecht S.A Não poderiam tê-la falido  sem querer.
            Resumindo a história, ela pertencia a Arthur Flecht, bom homem, cristão, que teve o infortúnio de se associar com Irwin Schiavo, que não só faliu a empresa para os propósitos do plano como o incriminou, usando um contador que “comprovou” um desvio de verbas por parte do bom moço. Arthur foi processado por isso, e perdeu tudo o que tinha e não tinha. Tenho que bater no mequetrefe por dois motivos: o primeiro é dar alguma digna justiça ao bom cristão que fora lesado; o segundo, saber o porquê. O que a Irmandade fará com o galpão? O que a vidraçaria tem de tão especial a ponto de chamar a atenção deles? E onde, por Deus, foi parar o bom moço? Desde que os processos começaram a tramitar, ninguém consegue encontrá-lo a não ser a própria justiça.
            Deixo que ele siga bem na frente. Paladinos conseguem ver uma espécie de trilha que os vampiros deixam quando passam. Parece que o ar que se opõe a eles fica contaminado com sua presença. É como se víssemos uma espécie de vapor frio saindo de dentro deles. Mesmo alguns minutos depois de sua passagem por algum lugar, ainda podemos seguir esse rastro para encontrá-los. Viramos muitas esquinas, e andamos bastante antes eu vê-lo novamente. Estava saindo de uma banca de revista, e atravessando a rua – o semáforo estava no sinal verde para os pedestres – com a revista cobrindo o seu rosto. Como tinha que ser, ele topou com um homem que vinha na direção contrária à dele. Depois de se desculparem um com o outro, cada um pegou sua maleta e seguiu viagem. Eu sei que o safado do Bledsoe tem lá seu trezentos e cinqüenta anos. Como pode sobreviver tanto sendo estabanado assim?
            Quando o outro homem passou por mim, tive uma leve impressão. Claro que o fedor daquele filhote de morcego estava nele, porque tinham se trombado, mas alguma coisa estava muito errada. Quando o homem estava a cerca de dez metros de mim eu olhei para trás, e percebi que havia um vulto atrás dele: um pássaro, que me olhava fixamente, pousado na caixa de correio. Ele olhou para o pássaro, como se prestasse atenção em uma conversa muito importante, e depois olhou pra mim. O olhar vazio o denunciou: um bruxo! Raios! Então não foi sem querer: eles trocaram as maletas ao se esbarrarem. O que tem dentro dela, então? Será que algo de valor para as investigações? Certamente, já que o incompetente do Bledsoe não sobreviveria a um ataque de paladinos. Eles tinham que proteger sabe lá o que quer que seja, e deveria ser com um bruxo, que nós não tocamos por questões bíblicas.
_ Ruppert, vai para casa e leva o meu jornal. Vou conversar com um amigo e já volto.
            Vi sombras se levantando do chão. Espíritos, sendo conjurados naquele momento. Os lábios do bruxo se mexiam, o que não era bom sinal. Tinha que sair dali antes que algo acontecesse. Apesar de já estarmos a uma boa distância do centro de Londres havia muito movimento. Não deveria lutar ali. Chamei um táxi.
_ Siga em frente, por favor.
_ Tentando interceptar o bruxo? É um sujeito bastante escorregadio, Michael. Igual aquele vampiro vivo, peão dos Lombardi.
         Existem dois tipos de vampiros: os mortos - que possuem uma força terrível, habilidades psíquicas e mentais impressionantes, e sugam sangue humano para garantir seu "direito" de andarem entre os vivos - e os vampiros vivos - que são homens que adotaram uma religião egípcia muito antiga, em que suga-se a energia vital de um humano. Isso dá força para seus feitiços, e certa longevidade, mas não a eternidade.
_ Na verdade, estava atrás do vampiro que trocou de maleta com ele.
_ É impressão minha ou ele está conjurando um feitiço?
_ Não deveria estar aqui, David.
_ É um pouco tarde pra me dizer isso, não acha?
_ Ele vai derrubar o carro se não se apressar.
_ Está ungido. Não se atreverão.
_ Mortais e seus amuletos. – suspirei, imaginando em uma solução para aquele episódio. Para minha surpresa, o carro estava mesmo protegido, porque ao lado dele voavam quatro anjos de guerra, grandes, com asas ladeadas com a prata e ouro dos adornos de suas armaduras, espadas reluzentes, elmos com inscrições sagradas na fronte, olhos e punhos em chamas.
_ Interessante. Eis aqui um verdadeiro homem de fé.
_ Disse alguma coisa?
_ Vamos ter que nos apressar um pouco mais, ou o vendaval vai nos pegar antes de chegarmos em casa.
_ Deixe que venha. Vamos velejar. – falou com um sorriso astuto nos lábios, desafiando os vultos que já estavam nos alcançando. De repente, ele vira num beco à direita e estaciona. Os anjos tomam uma posição de parábola em frente ao veículo e desembainham as espadas. Imediatamente saltei do carro:
_ Você ficou louco? Por que parou?
_ Não sei ao certo. Ouvi a voz de Deus e obedeci, foi só isso. Ele deve ter alguma surpresa pra nós.
_ Não leva a mal, mas acho que Deus não prepara esse tipo de surpresa pra um servo Dele não. Acho que você tem que limpar os ouvidos espirituais um pouquinho só...
_ Não vai ser necessário, Paladino. Guarde suas armas, porque a batalha agora será nos céus. Ore.
            Foi o que tive que fazer. Enquanto orava, as sombras se avolumavam, e sem menor aviso começaram a vir contra nós. Espiritualmente, via uma muralha de fogo ao redor do carro, e os anjos pareciam realmente guerreiros terríveis. Pacientemente, giraram a espada no ar, e partiam dezenas de demônios em cada golpe que desferiam. Em um turbilhão de sombras, via as luzes de suas espadas, os seus olhos terríveis e os movimentos graciosos retalhando o véu negro que tentava nos sucumbir. Parecia muito com uma cruzada. A diferença era que os seres voavam, e descreviam acrobacias fantásticas no ar. Certamente David não podia ver, mas orava com um fervor bem característico dos pentecostais, e sabia cada passo tomado na guerra, pois durante as orações, feitas de olhos fechados, ele pedia a Deus que os anjos fossem privilegiados exatamente com aquilo que precisavam e na hora em que precisavam. Deus atendia prontamente a cada palavra.
_ Obrigado, Senhor, por mais uma batalha vencida.
_ Admirável, sua fé. Agora, se não nos apressarmos, vamos perder os dois de vista.
_ Relaxe e curta a vitória, paladino. Temos somente que esperar esta luz aqui – apontando para uma luz vermelha no GPS – ficar azul.
_ Achei que tivesse morrido em Praga. – falei, me referindo ao episódio em que uma quadrilha invadiu a igreja onde ele era pastor e metralhou a todos.
_ Aquilo realmente quase me matou. Fiquei três meses em coma. Depois que me recuperei, reergui a igreja e a deixei com um bom pastor. Mas foi uma experiência que me abriu os olhos, pois como um bom estudante da Bíblia, supunha que houvesse mesmo uma conspiração mundial pelo Anticristo, mas não imaginava que estivesse tão próximo, e em nível tão crítico. Quando aquele bruxo converteu em minha igreja – depois de tê-la quase destruído – eu acordei para uma realidade da qual não posso fugir: estamos realmente em guerra.
_ Aprendeu a manusear arma de fogo? – e a luz se acendeu. Imediatamente o carro seguiu viagem.
_ Claro que não. Nossa luta não é contra carne ou sangue, e sim contra principados, potestades e dominadores deste mundo tenebroso.
_ E se você sobreviveu até hoje é porque Deus te deu outras armas para sobreviver nele, suponho.
_De fato.
_ Em se tratando de bruxos, concordo com você, mas vampiros estão mortos, por isso é necessário aprender a se defender deles. E com certa urgência!
_ Eu tenho uma teoria sobre eles: os vampiros são fotossensíveis, certo?
_ Verdade.
_ Entretanto, creio que a imagem do senso comum sobre os vampiros torrando ao sol é um eco da verdade.
_ Certamente. Normalmente, as lendas surgem assim.
_ Isso. A metáfora por detrás dessa figura é a luz do Evangelho, do Espírito de Deus, pois segundo a Palavra: “A Luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram”.
_ É um raciocínio coerente.
_ E não é? Logo, se mantivermos uma vida de intimidade com Ele, estaremos protegidos de vampiros, demônios e seres das trevas em geral.
_ Do alto das minhas centenas de anos de vida, posso garantir que é bastante sofismático alegar isso, David. Vi muitos homens de fé morrerem por não saberem se defender.
_ É mesmo?
_ Sim, é sério. – disse, deixando um longo momento de silêncio. – Eu tinha um tutor, em 652, chamado Icarus. Era um homem de oração, que não acreditava tanto na violência como meio de lidar com os vampiros. Ele tinha a mesma teoria. Um dia, invadiram a Trina Magna e varreram tudo em seu alcance. Não sobrou um vivo sequer no local. Cheguei a tempo de vê-lo dar o seu último suspiro.
_ Lamento por sua perda.
_ Não lamente: ele morreu puro em suas convicções. Na verdade, é justamente isso que admiro em você, e tomara que permaneça nesse caminho. Porém, esteja preparado para as conseqüências disso. Se a morte vier, espero que você não se traia, e nem a Deus, porque eles vão tentar tirar tudo de você.
_ Podem me tirar até mesmo a vida, se necessário for. Eu sei que sou em espírito o que você é em carne: imortal. Minha salvação eles não podem tirar.
_ Amém.
            Enquanto cruzávamos o sinal, uma garota esperava sua vez do outro lado da calçada. Ela tinha cabelos bem pretos, um MP4 no ouvido, estatura mediana, pele branca, tingida com algumas tatuagens multicoloridas. Usava um coturno de fivela sobre a calça jeans rasgada no joelho, spikes nos dois braços – nada que estragasse sua feminilidade -, uma camisa preta escrito “Metal 4 Jesus” com letras bem underground, uma jaqueta jeans sem as mangas, com alguns patches de bandas de metal extremo cristãs. A despeito de seu visual caótico, Sarah parecia que tinha um sorriso ao invés de lábios. Brincava o tempo todo, usando o ar para reproduzir as batidas frenéticas do trash metal que ela ouvia.
_ Oi Sarah.
_ E aí? Pronta para uma viagem?
_ Nem acredito que eu estou fazendo isso. Só estou aqui porque é um show, não tem nada de religião nisso. Certo, Sarah?
_ Só me escuta que você não vai se arrepender. Espera aí. – e começa a revirar os arquivos do MP4.- Pronto. Curte essa banda aqui. São meus favoritos. – Sarah abraçou a amiga e pôs-se a andar.
_ Tem certeza que é cristão? É super pesado.
_ É sim. Eles vão tocar hoje à noite. É mais brutal que o Morbid. O melhor e mais old school de todos os death metal que eu escutei até hoje.
_ É muito bom mesmo. É até difícil de acreditar que seja cristão.
_ Difícil de acreditar vai ser quando você entrar na minha igreja. Imagina um lugar com gente vestida igual a gente, sem nenhum preconceito com tribo...
_ Espera aí. Você não disse que o show vai ser numa igreja.
_ E não vai. É numa estação de trem abandonada.
_ Legal.
_ Mas eu tenho certeza que, quando a gente entrar lá e você conhecer a galera, vai querer saber o que rola no nosso culto.
            A algumas quadras dali estava estacionada a moto de Sarah. Conversando muito sobre tudo, puseram os capacetes e foram para o local do evento. Ao chegarem à estação de trem onde ocorreria o evento, Sharon ficou pasma com a diversidade de tribos entrando no galpão: trash, death, punk, heavy, góticos, etc. Ainda passando o som para começar as apresentações estava uma banda de death metal. A entrada custou cinco euros e um quilo de alimentos não-perecíveis. Estavam na mochila que Sarah trazia, e com ela ainda uma dúzia de casacos, calças e outras peças de roupa não mais utilizadas. Muitos estavam com bíblias. Um furgão na entrada servia como um guarda-volumes para elas. À medida que afluíam pessoas para dentro do galpão, o ambiente foi ficando mais agitado. Um bar no lado oposto ao do palco vendia o que convinha a um evento cristão: sucos, refrigerantes, água, mas nada de bebidas alcoólicas. Alguns dos presentes estavam drogados, como era de se esperar do meio underground, fomentando o mais antigo clichê desde que a guitarra ganhou distorção: “Sex, drugs and rock’n’roll”. Esses, porém, pelas camisetas de bandas declaradamente satanistas que vestiam, obviamente não eram cristãos.
_ Nunca imaginei que fosse assim.-  Disse Sharon, extasiada. Se sentia em casa. Na verdade, nem em sua casa e nem em qualquer outro lugar ela se sentia como estava agora. Alguma coisa muito viva fazia aquele ambiente ser bom para todas aquelas tribos. Algumas delas, em outra ocasião, estariam brigando logo que se encontrassem. Do lado esquerdo do palco, um contêiner escrito “camarim”, que na verdade só servia para guardar os instrumentos, porque diferente dos outros cantores, os underground preferiam estar no meio do povo, conversando, evangelizando, exercendo a função de pastor que muitos deles possuíam. Do lado direito o segredo do evento:
_ Sarah, o que é aquilo? Está escrito “sala de guerra”. Como assim?
_ Ali ficam os intercessores. Eles oram durante todo o evento. Desde o começo do mês eles oram por este show, para que tudo corra bem, para que Deus tenha total liberdade para falar, sem intervenções malignas sobre ninguém. Hoje, às seis da manhã eles já estavam se revezando em oração.
            Verdade. Agora ela percebia: as sombras que a seguiam desde que era pequena não estavam lá. Isso significava que era como se estivesse dentro da igreja, porque eles haviam tornado aquele lugar santo. Era sua obrigação criar uma brecha para que os espíritos pudessem agir ali, porém ela percebeu que, longe da influência maligna deles, os pensamentos suicidas, a sensação de que não poderiam existir dias melhores, simplesmente sumiram. Parecia que antes ela esteve presa no escuro, e agora um mínimo de luz entrava pelas frestas, e revelava a verdadeira forma das coisas. Uma frase lampejou sua mente: “a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram”. Estava decidida: não faria nada, e não sairia dali até que o evento acabasse, até que tivesse a oportunidade de se proteger dos seus cruéis carrascos invisíveis.
_ O evento vai até que horas?
_ Vão ser oito bandas. Só sei que vai ter duas pausas pra gente comer, se confraternizar. Tem uma galera que vai fazer célula. Não sei até quando, pode ser que dure até meia-noite. Mas você está preocupada com isso? Vamos curtir, o resto a gente vê amanhã!
_ Oi, Sarah!- disse um rapaz magro, de cabelo grande e cacheado. Era inteiramente ruivo, até os pêlos dos braços. – Vamos lá pra frente. Ta todo mundo lá. E quem é sua amiga?
_ Essa é a Sharon, a Incrível.
_ Muito prazer, Sharon. Meu nome é Frank.
_ Oi, Frank... – disse, olhando para o chão. Não queria que ele percebesse o que estava pensando. Achou ele muito bonito, e parecia ser tão seguro de si. Diferente do que parecia por causa do visual, ele sorria. Sorria tanto que Sharon se repreendeu porque ele “não estava sorrindo para ela, ora essa! Estava simplesmente sorrindo”. Só não achava que seu cabelo fino todo repicado de estilete pudesse chamar a atenção de alguém como ele. Ainda por cima depois de ter raspado dos lados. Quando ela quer, usa gel e secador para fazer um moicano, ou penteia para um lado só para deixar à mostra a tatuagem tribal no pescoço, como o que fizera hoje. Seus olhos eram um pouco fundos, mas grandes, e ela achava-se muito magra, de nariz muito alongado. Sarah vivia dizendo que a achava muito bonita, e não entende como ainda era solteira. Talvez por ser mulher sua amiga não entendesse muito bem o gosto dos homens.
_ Chega aí que eu vou te apresentar a turma. – falou Frank.
            Se embrenharam na multidão. A banda estava tocando um cover do Believer – Sanity Obscure. Todos balançam-se freneticamente, acotovelam-se, empurram-se, começando uma roda de hardcore. Rapidamente todos contagiam-se com a idéia, e entram no clima da música, apontando dedos furiosos para o céu enquanto cantam sobre o fim dos tempos com a banda. Alguns chegam a subir no palco e se atirar no meio da platéia, que lança o indivíduo para o ar como se ele fosse um rockstar. Cansando-se um pouco com a brincadeira, eles resolvem beber alguma coisa. O vocalista termina a música e começa a falar:
- Galera, eu quero falar uma coisa séria pra vocês agora. A gente está num evento com tribos de todo naipe, com gente que é igual a todo mundo. Talvez o mundo não veja isso como nós, mas apesar de sermos marginalizados, por causa do nosso cabelo, das tatuagens, do som pesado, tem um cara que olha pra gente além da aparência. Ele não nos julga pela aparência, mas pela intenção do nosso coração. Ele mesmo foi rejeitado no tempo dele, porque ele falava coisas muito loucas para o seu povo. Dizia que era melhor doar do que receber, que não existia desafio nenhum em amar as pessoas que nós amamos, mas que devemos amar nossos inimigos, porque todo mundo sabe amar as pessoas que nos amam, mas ninguém sabe reverter o fluxo das coisas. Nós mais reagimos ao amor do que agimos por ele. Ele mudou o fluxo das coisas...
_ Esse cara é muito louco. Eu sei que aqui tem caras que odeiam o nome de Deus, e o cara simplesmente está pregando como se não fosse custar nada a ele. - disse Sharon, boquiaberta. Quem falava era o pastor da banda, o vocalista.
_ Precisa ver o cara de quem ele está falando.
_ O nome desse cara é Jesus – continuava o pastor, e para deixar Sharon ainda mais boquiaberta, ela via muitos dos ateus que ela conhecia e que estavam no show, e muitos “satanistas” tentando segurar o choro. – Ele morreu em seu lugar, porque sabia que ia valer a pena, que alguém aceitaria o seu sacrifício. Escuta o que vou dizer: pensar diferente não é ser um marginal. Ele foi o exemplo vivo de que podemos sim sermos diferentes, e ao mesmo tempo sermos aquilo que a sociedade precisa para se curar de sua cegueira. A próxima música é de uma banda muito famosa, nós fizemos uma versão dela e queremos cantar com vocês, mas antes quero fazer um desafio. Você que entendeu o que eu disse, e quer ser parte dessa família, quer se entregar a Jesus, sobe aqui no palco que a gente vai orar por você. Levanta a mão que a galera vai te trazer aqui para o palco.-  Rapidamente, pessoas são levantadas e levadas ao palco, enquanto o restante aplaude a atitude deles de aceitarem a Jesus. Entre essas pessoas, Sharon, e Sarah ficou parada, chorando de alegria, como se estivesse vendo sua filha dando os primeiros passos. Feita a oração de entrega – bem espontânea e com palavras bem típicas do meio deles – a banda começou a tocar “Like a Song”, do U2, numa roupagem usada pelo Believer. Muitos sabiam a letra, e entre uma pausa e outra do vocalista, completavam as frases. Os recém-convertidos também cantavam, e se lançavam no meio da multidão, como uma espécie de batismo.
.....
            Longe dali, ainda perseguimos a luz azul no GPS, e contamos um ao outro o que se passou nos anos em que não nos vimos. David suportou muita coisa, e teve um treinamento muito mais pesado do que eu mesmo enfrentei, e confesso que se não fosse imortal, teria morrido há muito tempo no campo de treinamento da Trina Magna. Me parecia um tanto impossível para um mortal ter passado por tudo aquilo. Entretanto para um homem como ele, a mentira não cai bem, e ele sabe disso. Se tivesse mentido, os anjos que o escoltam já teriam se retirado, ou no mínimo tomado distância.
_ Já estamos algumas horas rodando. Não é possível que você também não tenha percebido que tem alguma coisa errada.
_ Mas ele está bem ali.
_ Verdade, posso sentir o cheiro dele.
_ Olha só: essa rua aqui ele não pegou antes...
_ Se não estivesse bem atrás dele, poderia jurar que ele tinha descoberto o chip e jogado em um veículo de transporte público.
_ Ele já deve estar sabendo da batalha que vencemos.
_ Certamente, e provavelmente sabe que o estamos seguindo. Só que damos a ele uma dúvida bem razoável ao aparecer e desaparecer algumas vezes. Vira aqui, a gente intercepta ele na próxima rua. Aliás, de onde você surgiu? O que está procurando aqui em Londres?
_ Vim visitar uma amiga. É uma história interessante, e estava justamente a procura de você para me ajudar a desvendar um mistério.
_ Pois bem, diga.
_ Louise Ponton, minha amiga de infância, foi assassinada há quase um mês.
_ Meus pêsames. Por quê? Alguma pista?
_ Isso é que é estranho. Ela é envolvida na guerra, mas achava que poderia fazer isso sem ser descoberta. Desde que desapareci pra protegê-la ela vem espionando as mesmas figuras que eu investigava quando estava no sul da França. Ingressou assim numa célula de informantes. Fiquei sabendo que ela estava aqui fazendo isso, e corri ao seu encontro, na intenção de persuadir a mente dela a não se envolver com a guerra, mas quando cheguei no hotel onde ela deveria estar, não a encontrei. Procurei por ela com todos os que eu conhecia aqui, e finalmente soube de sua morte por uma dupla que esteve na célula.
    É assim que chamamos as casas onde guardamos infrormações das nossas redes. Ele é perito em TI. As casas parecem com lares comuns, mas os subsolos são minunciosamente projetados para guardar nossos segredos.
_ Pobre Louise. Não escolheu um caminho fácil.
_ Quando voltei para casa, encontrei um bilhete com uma escrita que eu não conheço. Olha aqui.
_ Está escrito em Caelis. É um poema. Ouça:
            “Na dedicação do altar
            Príncipes vieram ofertar
            O número de Deus revelar:
            Dois bois, cinco carneiros,
            Cinco bodes, cinco cordeiros.
            O sacrifício pacífico veio ofertar
            Natanael, filho de Zuar;
            Eliuz, de Sedeur, no quarto dia
            Veio de Ruben cantar com alegria;
            Ofertou incenso num prato de ouro
            Dez siclos forjados com maestria
            Incenso ofertou num prato de ouro
            Dez ciclos de perfeito dom
            Pois o Senhor para todos é bom
            E suas ternas misericórdias permeiam
            Cada obras de suas mãos”.
_ Um poema? – exclamou ele. – Por que ela me mandaria com tanta urgência um poema?
_ Porque não é um poema. Ela deve querer fazer uma referência numérica. Os paladinos usam isso para marcar reuniões importantes. Se acharmos as referências bíblicas citadas no poema, temos o local e o horário.
_ Interessante. – falou, pegando a Bíblia no porta-malas.
_ Não pode dirigir e ler ao mesmo tempo. Me dá aqui e diz o que você está procurando.
_ O número de Deus revelar. Para alguns, o número de Deus é dez, mas para os teólogos, o número das revelações de Deus é o sete. É um número usado como metáfora, e que segundo afirmam significa que somente Deus sabe o tempo e a forma que essas coisas vão acontecer, a não ser que Ele revele pessoalmente a alguém. Algumas coisas que João viu ao escrever o Apocalipse ele não pode relatar. Entende-se que algumas coisas que ele fora proibido de dizer, escondeu atrás desse número: sete taças, sete candelabros, sete anjos, sete igrejas, etc.
_ Faz sentido. Da mesma forma que João, ela não podia dizer, por isso escondeu atrás desse número.
_ Mas a qual sete ela se refere?
_ Se queremos achar um número, que outro livro na Bíblia faria mais sentido que o de Números?
_ Verdade. É um livro repleto dessas narrativas.  – falou enquanto folheava o livro procurando pelo que o poema falava.
_ Aqui. “E, para sacrifício pacífico, dois bois, cinco carneiros, cinco bodes e cinco cordeiros”. Versículo 23
_ Natanael, filho de Zuar. Verso 18
_ Bastaria então apenas citar o nome dele. Essa referência não foi coincidência. Ouro e incenso, a oferta de Eliuz de Sedeur. Como ela repetiu a oferta desses versos aqui, isso deve significar um outro versículo em que foi feita a mesma oferta.
_ Mas aí chegamos a um impasse. Conta comigo: 38... 44... 50... 56... 62... 68... 74... 80... se é assim, qual deles pode ser e por quê.
_ E isso não é tudo. O final do poema é uma outra referência que não faz nenhum sentido para nós.
_ Esse é o Salmo 145. O versículo 9. Imaginei que soubesse. Quantas vezes você leu a Bíblia desde que nasceu?
_ Certo, Sr. Esnobe. Falta alguma coisa aqui. Não existe referência a um horário. Por quê?
_ Se indica algum lugar, deve ser na França, onde ela nasceu, algum endereço conhecido, coisa assim.
_ É isso, David! Ela não indicou o local, como um endereço ou coisa parecida. Indicou uma localização geográfica. Esse GPS pode localizar um lugar qualquer no mundo lançando as coordenadas?
_ Sim. É um GPS militar.
_ Então me deixe tentar uma coisa.  – falei, inserido as coordenadas do projeto científico mais audacioso dos mortais, e que coincidentemente eu estava investigando: 62º, 23’32’’ norte; 145,9’28’’ oeste.
_ O que tem lá? – perguntou ele. Ao olhar para o monitor leu em letras minúsculas, mas visíveis: HAARP.
_ Ah, por favor. Você acredita mesmo que possa ser isso? Esse é um experimento legitimamente científico, que estuda o comportamento das ondas eletromagnéticas na ionosfera.
_ David, posso te garantir que não é a única coisa que esse troço faz. Há quinze anos atrás visitei o projeto. Era grande demais para ser somente científico. Se já não estava sob o domínio do Plano, passaria a ser em breve. Os documentos que autorizaram o andamento do projeto têm a assinatura de membros importantes, tanto da Irmandade quanto da casa dos Gröndeburg, e Valpäalas. Eles têm nomes falsos, mas os Paladinos rastrearam suas linhagens até os elementos do Governo Norte-americano envolvidos no projeto. Os cientistas que estão lá são todos humanos e sem envolvimento com o Plano, mas você e eu sabemos quantas e quantas vezes eles usaram a boa vontade do espírito e intelecto humano para promover coisas horríveis.
_ Claro. As Grandes Guerras, as bombas atômicas, etc. Tudo de sujo e encardido teve o dedo deles.
_ Mas é um fato indiscutível que eles sabem do que o projeto se trata, e sabem que, mesmo não sendo necessariamente uma arma, os fundamentos da pesquisa podem originar uma, como ocorreu com a bomba atômica. O que se sabe é que, em um dado momento da pesquisa, notava-se o que os relatórios chamavam de um “efeito psicológico inusitado”. Um marinheiro se suicidou após receber as ondas que foram ricocheteadas da ionosfera sobre um navio. Ele se atirou no mar e foi dilacerado pelas hélices do motor. Supõe-se que ele tenha recebido apenas uma leve carga das ondas. Além disso, manipulando a ionosfera, é possível criar e dissolver fenômenos naturais como terremotos, furacões, tornados, etc.
_ Hum... Parece uma conspiração...
_ Não parecia há quinze anos atrás, mas a pesquisa deve ter rendido o que eles esperavam, e agora devem de alguma forma colher aquilo que plantaram.
_ E para acabar com todas as dúvidas de que isso seja realmente uma conspiração, olha só isso aqui: notou que a tinta dessas letras é um pouco diferente das outras? E parece que foram escritas por outra pessoa também.
_ Verdade. E por quê? – falei, obviamente sem que fosse necessário responder, mas David completou o raciocínio:
_ Para ajuntarmos fora do texto e descobrirmos...
_ Outro lugar. É mesmo o que estou lendo? – falei depois de ter escrito com uma caneta o que as letras sugeriam, na mesma ordem de leitura.
_ Está escrito London.
_ O que será que isso significa? É bom que o encontro de hoje à noite seja produtivo, porque já é a segunda vez no mesmo dia que esse mesmo assunto me toma de surpresa.

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