terça-feira, 12 de novembro de 2013

Capítulo VII - Um Novo Concílio

22 de Abril de 2010 - Diário de von Haugh


        David me deixou na esquina do Centurion Bar, exatamente às 07:00 PM. As luzes ainda competiam com o sol, mas a rotina da noite já tomava seu espaço costumeiro nas ruas: as prostitutas aproveitavam o calor daquele dia para reduzirem ainda mais o tamanho das roupas, e as cafetinas faziam o marketing das mais novas (indefinidamente mais novas), ainda tímidas demais - ou coagidas demais - para se insinuarem. Via várias etnias misturadas entre elas: "Humanos explorando humanos!"- pensei. Não seria uma fatalidade do destino se policiais aparecessem bem na hora para surpreendê-las num flagrante? Quando eles chegaram, guardei o celular. 

       Alguns bêbados acordavam de seu sono etílico, constatando novamente sua decadência. Relutantes em encarar a verdade, procuravam a primeira porta de bar que viam, no intuito se doparem novamente antes que seu fracasso voltasse a incomodar.
       O romano com a espada levava uma taça a boca. Sinalizava que o bar já estava funcionando. Parecia-se com um pub, com uma entrada pequena e escadas que levavam a um porão. Parecia que eu me encontraria com um vampiro. O hálito daquela noite me trazia essa impressão. Melhor seria se tivesse outro paladino comigo para o encontro, mas por hora tinha apenas uma constatação a fazer, e não podia me dar ao luxo de faltar ao encontro: não se faz guerra alguma sem informação.
       Lá estava ele, sentado com uma camisa branca e suspensórios, como o combinado, e lendo o "The New York Times", provavelmente o da semana passada, noticiando alguma coisa sobre um evento do chá em Nova York. Tinha os dedos largos e ossudos, cabelo marrom sob um chapéu surrado. Os cachos desgrenhados chegavam ao ombro. De longe se via que ele estava cansado. Era totalmente humano. Não que eu os subestime, mas tenho experiência demais com emboscadas para que um humano comum consiga me deter. Ele se perderia em ilusões até eu escapar. Portanto, aquele homem não era problema algum para mim, mesmo que fosse perigoso, de alguma forma.
       Temos um sistema de senha e contra-senha para iniciar um encontro. Sempre usamos frases inteiras. Elas estavam no bilhete que Ruppert e eu pegamos nas escadarias de St. Michael:
_ Estamos em tempos em que não se deve confiar em tudo o que se ouve. - solicitei a senha a ele.
_ Precisamos saber para onde olhar e o que perguntar. - respondeu, corretamente.
_ Este é o nosso cerne. - confirmei.
_ Que bom que está aqui. Escute com atenção o que vou dizer: HAARP está aqui. Na vidraçaria que eles tomaram. Investigamos tudo o que pudemos sobre essa nova investida, mas ainda temos muitas pontas soltas. Vamos precisar de sua ajuda para chegar à verdade.
_ Como posso confiar em você?
_ Isso é outra coisa que você precisa entender - disse ele lentamente, num tom indefinidamente mais baixo  - pois o sucesso do combate depende disso: a confiança em uma ilusão. Eu vou confiar no que você fizer, mas preciso que confie no que eu disser.
Usando o mesmo tom, respondi:
_ Presumo que o verdadeiro encontro não seja aqui.
_ Estou de carro. - disse, restabelecendo o tom inicial de nossa conversa. - Precisamos ir até o galpão da vidraçaria, nos certificarmos do que há lá dentro.
_Sim, vamos.
       É claro que havia alguma coisa estranha. Em um percurso como esse a troca de informações é muito comum e conveniente. Andar de carro só para chegar a algum lugar não é muito o nosso estilo. Me preveni, conforme seu aviso: confiar em minha ilusão. Tudo parecia encaminhar-se para o que minha interpretação apontava.
       O galpão parecia mais novo do que realmente era. Eu já tinha ido à vidraçaria algumas vezes no mês retrasado, sabia que não era naquele endereço. Quem quer que tenha criado essa ilusão, foi muito bom, e escolheu bem, pois o local tem dimensões bem parecidas com as da vidraçaria (ou dava essa impressão, pela fachada). Homens de trajes polidos, de cores mortas, nos acompanharam até o interior do galpão. Aset-ka! Disfarçados de escudeiros. Pensam que não reconheceríamos um inimigo disfarçado de soldados nossos. Eles não deixam rastros como os outros vampiros, por isso têm a ilusão de que não os descobrimos. Deixem que pensem assim. Era ridículo ver eles se esgueirando para invadir o galpão, dava dó. Não sobreviveriam muito além de minutos em uma batalha como a do Dia Vermelho, contra os nobres e os 12 Generais.
       Ao chegarmos no interior do galpão não havia nada além de um enorme vazio. Parecia mais um matadouro do que uma antiga vidraçaria.
_ Ora, ora, ora... mas o que tempos aqui? Vou pegar de uma só vez dois dos mais antigos paladinos da história?  - falou, babando sarcasmo, o mequetrefe.
_ Não me surpreende o galpão feder tanto. Olha quem está aqui...
_ Língua afiada como sempre, Sr Von Haugh.
_ Você não me conhece tanto assim pra dizer "como sempre". A melhor dica que vou te dar esta noite.
_ Você tem algo que me pertence. Onde está?
_ Eu é que deveria perguntar. Que tal darmos a resposta juntos?
    Assentindo com a cabeça, e triplicando seu sorriso sarcástico de tamanho, ele apontou para o alto, tentando me mostrar um saco de estopa cheio de qualquer coisa. De onde estava percebi que o homem de chapéu surrado que me trouxe até aqui reagiu: acreditava piamente que o saco era Black Cat. Eu teria que fazer o trabalho sozinho e procurar meu amigo.
_ Eu estou com o que você quer. Solte-o e te entregaremos. - falou o americano.
_ Muito bem...- e um dos Aset-ka disfarçados veio em nossa direção, estendendo a mão. O americano entregou uma dúzia de papéis, e deu alguns passos para trás.
_ Vocês têm trinta segundos para chegar à base da corda. A escada que leva até ela é aquela, à esquerda do extintor. Boa sorte. - Se virou e quis sair. Enquanto o americano corria desesperado a escada, uma kunai de prata cruzou o ar, cravando-se na parede à frente do mequetrefe, com um fio de prata afiado amarrado em sua base. Ela acertou o botão que abria a porta, portanto ele estava preso comigo naquele galpão. Quando se virou, os Aset-ka já estavam imobilizados. Eram três, foi fácil. Eles tentaram usar o espírito, mas as cordas eram sagradas, prenderam-nos aos seus corpos. O mequetrefe teria dado um chilique, se tivesse tempo. Deixou os objetos no chão, e começou a conjurar. Minha perna foi agarrada por um espírito, que me arremessou contra a parede. Como me tinha livrado dele antes de atingi-la, usei como trampolim para avançar contra ele. Quinze golpes ainda não foram suficientes: ele era rápido e escorregadio, como David me alertou. Disferi uma sequência de golpes com as mãos abertas, fechadas, abertas de novo... toda vez que minhas mãos acertavam alguma coisa, eram de concreto ou madeira, máquinas. Nunca o infeliz. Soquei no rosto, com uma certeza milenar de que acertaria, mas ele se esgueirou, e girou a perna com um chute direto no rosto. Girei o corpo, usando o quadril, e aproveitei para disferir o mesmo chute, médio, no peito. Ele aterrissou seis metros depois, no maquinário do galpão. Parecia uma gráfica. A ilusão começou a perder o efeito, portanto deveria ser obra dele.
       Meu companheiro chegou à tempo de salvar um monte de estopa com papel picado dentro. Capangas do advogado tentavam se livrar dele lá no alto, enquanto ele fazia acrobacias ousadas até mesmo para o mais ousado humano. Ele lutava bem.
       Soco no meu rosto. Defendo e torço seu braço. Um chute rodado tenta acertar minhas pernas, mas absorvo o impacto e aproveito para derrubar, chutando com a lateral dos pés as juntas atrás do joelho esquerdo. Quando vou finalizar com um soco na nuca, sou atingido por duas sombras rijas no peito. Tomo a postura de luta do paladino, com o espírito defendendo mais à frente do corpo. As sombras se aproximam e tentam com espadas dilacerar meu espírito, que se esgueira junto com o corpo, enquanto chego mais perto do infeliz. Ele me acerta o estômago, mas com o espírito defendo e lanço as pernas por cima do seu pescoço. Quando tento encaixar um arm lock, ele gira o corpo e, usando o espírito, me arremessa contra uma alavanca pontiaguda. Se não tivesse usado o espírito, teria morrido. Dei voltas no ar, até chegar com o punho bem próximo dele. Dessa vez, tentaria paralisá-lo: usando dois dedos de cada mão, me esgueirei até seus pontos vitais, mas ele era muito rápido. Após uma bela sequência de esquivas, encontrou no meu bolso esquerdo uma arma, e sacou contra minha cabeça, tomando distância para tentar fugir por algum lugar que ele tinha cogitado:
_ Jogue suas armas no chão!- o mequetrefe.
_ Onde vai com tanta pressa?  - retrucou o americano.
_ Já temos o que queremos. - completei. Para deixá-lo mais interessado, continuei:
_ Eu tenho algo que você quer bem mais do que o seu segredo do HAARP...
_ Mentiroso! - falou, com ar esnobe.
_ Eu sei onde ela está.
_ E você vai ficar sem ela - disse o americano, entrando no jogo e apontando uma arma pra minha cabeça.
_ Esse é o pior blefe da história, Sr. Mad Dog! - disse ele, rindo.
_ Não sou nada dele, e não posso deixar ele te matar, ou não terei a minha recompensa. O senhor deve conhecer bem meu trabalho: não tenho lados, e não guardo rancor. São coisas que atrapalham o negócio, e eu sou bem próspero.
_ O que faz você pensar que não vou eu mesmo atirar nesse maldito?
_ A coroa está num lugar que somente eu sei. - eu disse.
_ Como você saberia?
_ Você deve saber que fui eu quem tirou da cabeça de Lucius. - falei, apontando lentamente uma arma para a cabeça do advogado. - Além do mais, a partir de agora você vai ter que escolher em quem atirar. 
_ Maldito! Agora é tarde! Eles vão trazer de volta os generais! Nem mesmo se eu tivesse a coroa poderia detê-los- e atirou contra mim. Em seguida, já não me enxergava mais à sua frente, mas sua própria imagem, e Mad Dog - como descobri que o americano se chamava - apontando a arma para sua cabeça, a vinte metros de onde estava.
_ Mas como...?
_ Já ouviu aquela lenda de que os vampiros não possuem reflexo no espelho? É apenas um eco da verdade.
    Percebeu, então, seu erro fatal. Era tarde demais para qualquer reação, então ele riu. Debochadamente. Saindo de um corredor à direita, eu saía com Black Cat, ensanguentado. O mequetrefe percebeu que criei uma ilusão em forma de espelho à sua frente, que esteve preso em minha ilusão o tempo todo, e que Mad Dog não estava a vinte metros de distância, mas a dois, ao seu lado, com a arma apontada para sua cabeça. Seu último gesto foi o mais covarde - e conveniente - de todos: tentar fugir. Me certifiquei com meus poderes que sua velocidade seria a de um humano normal. Mad dog disferiu um tiro na cabeça. Com minha arma favorita: a 'Nazarena', como chamava meu mestre armeiro, Argos. Munição de nitrato de prata, com ponta oca, de alumínio. Estoura dentro da vítima e espalha bastante o nitrato. A única coisa que ele conseguiu foi evitar que o tiro o atingisse diretamente (acertou o pescoço, graças à sua última ilusão), mas o nitrato de prata estava em suas veias, e agora seria tarde demais.
_ Pensou rápido, Mad Dog... - disse Black Cat, quase sem forças.
_ Quê? - disse o garoto, de longe.
_ Ele disse que você pensou rápido.
_ Me lembrei de uma história que ele contou para mim no voo pra cá, de como vocês enganaram um dos generais e deceparam a cabeça dele. Foi bem parecido, mas com cinco séculos de tecnologia a arma tinha que ter evoluído também, portanto nada mais próprio do que a Nazarena para o trabalho...
       Tentei rir um pouco, mas me esqueci de como se faz isso. A máscara de prata que esteve o tempo todo tapando meu rosto parecia inibir qualquer graça que a lembrança me trouxesse. E para me privar de qualquer alegria precoce, nada melhor do que a urgência de Black Cat:
_ Von Haugh, Jeff Zieggerman estava aqui.
       Aquele nome me dava arrepios. Ele foi o único que sobreviveu à nitrato de prata, por meio de um procedimento muito doloroso. Durante a batalha que tivemos, eu arranquei a mandíbula dele com um golpe de minha espada. O nitrato de prata em que a lâmina era embebido entrou no seu organismo, impedindo que o ferimento cicatrizasse. Ele não tem a parte de baixo da boca, a que foi arrancada, por isso anda com uma bandana negra, com um símbolo parecido com o dos Aset-ka na frente. Sua aparência já era assustadora antes mesmo do ocorrido, e sua frieza também. Ele é pior do que o filho de Abadom em personalidade. Se ele estava ali, deveríamos urgentemente atirar na cabeça do mequetrefe antes que... Tarde demais! Ele havia sumido! Olhávamos agora para uma ilusão.